Manifestantes acampavam nesta segunda-feira (28) em frente à sede do governo regional de Madri pelo terceiro dia consecutivo para protestar contra o despejo de uma idosa de 87 anos. A mobilização ocorre em meio à crescente insatisfação popular com a escassez de moradias e a disparada nos preços dos aluguéis na Espanha.
O movimento ganhou força após a retirada de Maricarmen Abascal de seu apartamento em uma maca pela polícia. Ela residia no local havia mais de sete décadas, mas foi alvo de uma ordem de despejo obtida por um fundo de investimentos que adquiriu o imóvel.
Centenas de pessoas se concentraram inicialmente no edifício onde a idosa morava, gerando confrontos com as forças de segurança. O governo central, de orientação socialista, criticou a administração regional de centro-direita por não adotar medidas para impedir a expulsão.
Acampamento na Puerta del Sol
Dezenas de barracas ocupam a região central da Puerta del Sol, remetendo aos atos históricos de 2011, quando ativistas ocuparam o espaço contra medidas de austeridade. A União dos Inquilinos coordena os atos, que exigem maior proteção legal para os inquilinos e o congelamento de reajustes abusivos em todo o território nacional.
No sábado anterior, cerca de 30 mil pessoas marcharam pelas ruas da capital espanhola empunhando chaves e cartazes com palavras de ordem contra a atuação de fundos imobiliários. Os manifestantes apontam que o custo da habitação se tornou insustentável para a classe trabalhadora e para as gerações mais jovens.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez declarou que a administração federal trabalha na aprovação de um decreto habitacional no Parlamento para tentar amenizar a crise. No entanto, grupos de inquilinos e partidos de oposição divergem sobre a eficácia das propostas em discussão para conter o avanço dos preços.
Mensagem de Maricarmen Abascal
Da unidade de saúde onde foi internada após a desocupação, Maricarmen Abascal enviou uma mensagem gravada aos manifestantes que tomaram a praça central. A idosa pediu união e firmeza na defesa dos lares durante o protesto coordenado pelas entidades sociais.
Sejam corajosos, lutem, defendam o que é de vocês e, por favor, cuidem de si mesmos. Continuem acampados enquanto seus corpos aguentarem e enquanto quiserem.”
Maricarmen Abascal
O vídeo divulgado pela organização do movimento gerou forte comoção entre os atiradores de barracas e o público presente. A repercussão do caso intensificou o debate sobre a vulnerabilidade de inquilinos idosos diante de fundos de investimento imobiliário.
Déficit habitacional e aluguéis
Dados divulgados pelo Banco Central da Espanha apontam que o país enfrenta um déficit estrutural estimado em cerca de 750 mil moradias. As projeções da autoridade monetária indicam que essa lacuna pode ultrapassar a marca de 1 milhão de habitações até 2028.
Atualmente, o setor da construção civil entrega cerca de 120 mil unidades por ano, volume substancialmente inferior ao ritmo observado antes da crise financeira global de 2008. Enquanto a oferta estagna, os contratos de locação dobraram de valor na última década, superando com folga a recomposição salarial.
Diferentemente do período anterior, marcado por execuções hipotecárias e inadimplência de financiamentos bancários, a pressão atual decorre diretamente do mercado de arrendamento. A especulação imobiliária e a conversão de residências em aluguéis de temporada agravam o cenário nas grandes cidades.
Reações políticas e impasses
A presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, criticou os atos e argumentou que as exigências dos manifestantes representam uma tentativa de alterar regras de contratos vigentes e a segurança jurídica. Representantes do governo regional sustentam que a solução passa pelo incentivo à construção de novos imóveis.
Enquanto o debate político se polariza, estudantes e trabalhadores relatam dificuldades crônicas para conquistar autonomia financeira e deixar a residência dos familiares. A falta de opções habitacionais acessíveis transformou a habitação no centro do debate político espanhol.
Novas manifestações foram convocadas por coletivos sociais em diferentes regiões do país para manter a pressão sobre os legisladores. A votação do decreto no Parlamento é vista por analistas como um termômetro da capacidade de resposta do Executivo diante do descontentamento nas ruas.


