A história de María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen, mobilizou a Espanha e colocou no centro do debate a gravidade da crise habitacional no país europeu. A idosa de 87 anos, moradora do bairro de El Retiro, em Madri, foi retirada de seu apartamento na Rua Alcalde Sainz de Baranda após um longo processo judicial movido pela empresa imobiliária que adquiriu o edifício em 2018. O caso gerou forte comoção nacional, com dezenas de milhares de manifestantes indo às ruas da capital e de outras cidades espanholas para exigir maior proteção aos inquilinos e o fim de despejos sem alternativas habitacionais.
Diante da enorme repercussão pública e da pressão popular, a situação teve uma reviravolta favorável para a inquilina dias após a retirada. A defesa de Abascal confirmou que ela poderá retornar ao imóvel após fechar um acordo formal com o proprietário, garantindo um contrato de aluguel por oito anos com valores semelhantes aos que pagava anteriormente. Atualmente, a idosa permanece internada no Hospital Gregorio Marañón para acompanhamento médico após ser hospitalizada logo após o despejo, aguardando alta para assinar os novos termos e voltar para casa.
Manifestantes tomam as ruas
Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de Madri para protestar contra o despejo de Maricarmen, com manifestantes passando a noite acampados na Puerta del Sol. A mobilização reuniu famílias de várias gerações que exigiam maior proteção aos inquilinos e o fim de despejos sem opções de moradia. Manifestações semelhantes também ocorreram em outras cidades espanholas, como Barcelona, Sevilha e Valência, ampliando a pressão sobre as autoridades locais.
Autoridades do governo espanhol estimaram que quase 10 mil pessoas se reuniram na capital para expressar frustração com as dificuldades crescentes para encontrar moradia. O movimento popular conseguiu ecoar nacionalmente, transformando o caso individual em um símbolo das falhas estruturais do mercado imobiliário. A rede de apoio da idosa organizou atos contínuos e tentou negociar diretamente com a empresa imobiliária Urbagestión até que a repercussão pública forçasse uma reviravolta nas negociações contratuais.
Antes de fechar o novo acordo com o proprietário, Abascal enviou uma mensagem gravada em vídeo aos apoiadores a partir do hospital. Ela agradeceu a solidariedade recebida e pediu que a população continuasse mobilizada pela garantia do direito à moradia. A declaração reforçou o impacto emocional e político do episódio, mobilizando ainda mais defensores dos direitos dos inquilinos em todo o país.
Justiça mantém disputa longa
A moradora vivia no mesmo local desde 1956, tendo herdado o contrato de aluguel original de seus pais, pelo qual pagava cerca de 500 euros mensais. No entanto, a situação jurídica mudou radicalmente quando a empresa imobiliária Urbagestión adquiriu o edifício em março de 2018. A partir de então, o novo proprietário passou a exigir valores de aluguel até quatro vezes superiores à capacidade financeira da inquilina, cuja aposentadoria é de aproximadamente 1.300 euros mensais.
Minha casa foi minha vida. E agora tenho que deixá-la para trás. Mas isso não significa que não continuarei lutando.”
María del Carmen Abascal
Em março de 2020, a empresa imobiliária entrou com uma ação para encerrar o contrato de aluguel. Embora Abascal tenha vencido em primeira instância, a decisão foi revertida pelo Tribunal Provincial após recurso da proprietária. A defesa tentou reverter o desfecho no Tribunal Constitucional e no Supremo Tribunal, mas os recursos foram rejeitados, abrindo caminho para que a imobiliária buscasse a execução judicial da posse do imóvel.
O processo acumulou quatro tentativas de despejo ao longo dos anos, sendo adiado temporariamente em outubro de 2025 e junho de 2026 devido a normas de vulnerabilidade e aos esforços da equipe jurídica. Os advogados argumentaram exaustivamente sobre a falta de alternativas habitacionais para uma idosa de 87 anos, mas a pressão legal da empresa acabou prevalecendo até o momento da retirada efetiva que provocou comoção pública generalizada na Espanha.
Preços pressionam o mercado
As dificuldades para ter acesso à moradia na Espanha não são recentes e vêm gerando protestos recorrentes nos últimos anos. O descontentamento popular decorre da alta expressiva nos preços dos imóveis, com impacto severo nas principais cidades do país. Em Madri, por exemplo, o preço do aluguel quase dobrou em uma década, passando de 12,8 euros por metro quadrado para 23,3 euros por metro quadrado, conforme dados do setor imobiliário.
Esse encarecimento contrasta de forma drástica com a realidade salarial da população espanhola. Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística indicam que o salário médio anual no país fica em torno de 29.540 euros. Com isso, alugar um apartamento de tamanho moderado na capital consome quase metade da renda de um trabalhador médio, comprometendo a capacidade de poupança e gerando um cenário de vulnerabilidade para milhares de famílias.
Organismos internacionais como o programa UN-Habitat alertam que o custo de moradia deve comprometer no máximo 30% da renda para ser considerado acessível. Na Espanha, contudo, a disparidade entre salários e aluguéis empurra grande parte da população para o comprometimento excessivo do orçamento mensal. A situação pressiona o governo liderado por Pedro Sánchez a adotar medidas mais enérgicas de controle de preços e proteção social.
Acordo garante o retorno
O desfecho do caso veio através de um acordo formal negociado pela equipe jurídica de Abascal com o proprietário do imóvel. Pelo entendimento firmado, a idosa poderá retornar ao apartamento no bairro de El Retiro mediante a assinatura de um novo contrato com validade de oito anos. Os valores acordados seguem patamares semelhantes aos que ela pagava antes do início da longa disputa imobiliária.
Apesar da boa notícia sobre a moradia, a idosa permaneceu internada no Hospital Gregorio Marañón para exames e recuperação após o estresse provocado pelo despejo forçado. A equipe médica avalia o quadro de saúde antes de liberar a alta definitiva. Os advogados informaram que a assinatura formal dos novos termos contratuais ocorrerá imediatamente após a liberação hospitalar da inquilina.
O caso emblemático permanece como um marco nas discussões sobre habitação na Europa, evidenciando tanto a força da mobilização social quanto a fragilidade de inquilinos idosos diante de grandes fundos imobiliários. Enquanto Maricarmen se prepara para voltar para casa, coletivos de moradia prometem manter a pressão por reformas legislativas que evitem situações semelhantes no futuro.


