O recorde histórico de reprovação popular enfrentado pelo STF

Nova pesquisa aponta avanço da desconfiança da sociedade em meio a discussões sobre condutas éticas e repercussão de escândalos.

Da
Redação
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Sede do Supremo Tribunal Federal em Brasília, cuja avaliação negativa atingiu o patamar de 47% em pesquisa Datafolha.
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A avaliação negativa do trabalho dos ministros do STF subiu para 47% em setembro de 2026, conforme dados de uma nova pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste sábado. Esse patamar representa o índice mais alto registrado pela série histórica do levantamento, que teve início em 2019. Na medição anterior, realizada em maio, o percentual de recusa à atuação da corte estava em 40%.

Em contrapartida, a avaliação positiva do desempenho do tribunal fixou-se em 18%, repetindo o mesmo patamar de dezembro de 2019, que até então marcava o ponto mais baixo da série. Outros 31% dos entrevistados consideram o trabalho regular, enquanto 4% preferiram não opinar sobre o tema. O levantamento também detalha divisões expressivas no eleitorado conforme a preferência política dos cidadãos ouvidos em todo o país.

Entre os eleitores do presidente Lula, 32% avaliam a atuação dos magistrados como ótima ou boa, ao passo que apenas 6% dos eleitores de Flávio Bolsonaro compartilham da mesma opinião. O cenário se inverte na parcela desfavorável: 69% dos eleitores de Flávio consideram o trabalho da corte ruim ou péssimo, enquanto entre os simpatizantes de Lula esse índice fica em 24%. A pesquisa foi contratada pelos jornais Folha de S.Paulo e O Globo, ocorrendo entre os dias 22 e 24 de setembro.

Eleitores rejeitam condutas éticas

O Datafolha também questionou a população sobre a aceitação de seis condutas específicas de ministros durante o exercício de suas funções na corte. A prática mais rejeitada pelo eleitorado, atingindo 88% de reprovação, é a atuação de um magistrado no julgamento de processos de pessoas cujos advogados sejam seus próprios parentes. O tema da imparcialidade e dos conflitos de interesse tem ocupado o centro do debate público nos últimos meses.

Em patamares elevados, 85% dos entrevistados consideram inaceitável que um ministro aceite convites para eventos corporativos pagos por empresas que possuem ações em tramitação no tribunal. Além disso, 82% reprovam a tomada de decisões capazes de beneficiar ou prejudicar candidatos à presidência da República durante o período eleitoral. Práticas como ser sócio de empresa privada, receber pagamentos por palestras corporativas e emitir opiniões públicas sobre processos pendentes de julgamento também acumulam forte rejeição, variando entre 71% e 78%.

Diante do cenário de questionamentos, a maioria do eleitorado brasileiro demonstra apoio à implementação de travas institucionais mais rígidas. Cerca de 45% dos entrevistados declararam ser favoráveis à aprovação de um código de ética específico para os ministros do STF, dividindo-se entre totalmente a favor e favoráveis em parte. Por outro lado, 33% manifestaram oposição à medida, enquanto 5% não se mostraram nem a favor nem contra e 17% não souberam responder aos pesquisadores.

Fachin articula código interno

A formulação de um código de conduta interno constitui uma das principais bandeiras da gestão do ministro Edson Fachin à frente da presidência do tribunal. O objetivo declarado da proposta é mitigar conflitos de interesse, conferir maior previsibilidade às normas e consolidar consensos no colegiado. Em fevereiro, o ministro designou a colega Cármen Lúcia como relatora da iniciativa, embora o projeto tenha encontrado resistências internas e divisões entre os próprios integrantes da corte.

O avanço das discussões ganhou impulso após a ampla repercussão de revelações sobre supostos vínculos de ministros com o escândalo envolvendo o Banco Master. Vieram a público episódios associando o ministro Dias Toffoli ao resort Tayayá e um contrato milionário firmado pela esposa do ministro Alexandre de Moraes com a instituição financeira. As revelações geraram forte desgaste político e pautaram discussões no plenário sobre ritos processuais e relatórios da Polícia Federal.

Durante sessões recentes, o Supremo ensaiou a análise de relatórios contendo diálogos extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvendo conversas com Moraes. O debate, contudo, acabou interrompido por questão de ordem e posterior pedido de vista. Relatórios da PF e do Conselho Nacional de Justiça também mencionaram o ministro Kassio Nunes Marques em articulações financeiras, enquanto o ministro André Mendonça figurou em registros de reuniões que, segundo sua assessoria, ocorreram em caráter oficial e regular de gabinete.

Levantamento detalha impacto político

O levantamento do instituto Datafolha ouviu presencialmente 2.002 eleitores em pontos de grande fluxo populacional por todo o território nacional. A margem de erro máxima estimada para a amostra global é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, considerando um nível de confiança estatística de 95%. Os dados consolidados foram devidamente inseridos no sistema eletrônico do Tribunal Superior Eleitoral sob o número de registro BR-00304/2026.

Quando questionados especificamente sobre as investigações do caso Master, 77% dos entrevistados afirmaram ter conhecimento prévio das suspeitas que envolvem ministros da mais alta corte do país. Entre essa parcela que acompanha o noticiário, 68% disseram acreditar na existência real de envolvimento de magistrados nas irregularidades apontadas pelas autoridades, ao passo que apenas 2% descartaram qualquer participação e 7% não souberam opinar sobre o desfecho das apurações.

O impacto político do tribunal também recai sobre as percepções partidárias ligadas à corrida presidencial em curso. Para 33% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa, a atuação atual dos ministros do STF prejudica mais do que beneficia a candidatura de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, 23% dos consultados avaliaram que o presidente Lula acaba sendo mais prejudicado do que beneficiado pelas decisões e pela exposição institucional recente da corte.

Credibilidade e cenários futuros

A divulgação da pesquisa reforça o momento delicado enfrentado pelo Poder Judiciário na relação com a sociedade civil. Especialistas apontam que a perda de capital político da corte pode influenciar diretamente a dinâmica de votações e a relação institucional com os demais Poderes da República nos próximos meses. A pressão pública por maior transparência e controle interno tende a permanecer como um dos principais eixos de cobrança sobre os magistrados.

Além disso, o debate sobre os limites de atuação dos ministros em temas sensíveis continua aberto no Congresso Nacional, onde parlamentares monitoram os desdobramentos das revelações recentes. O cenário de polarização política também impõe novos desafios para a preservação da imagem de imparcialidade do tribunal diante do eleitorado de diferentes correntes ideológicas.

A consolidação desses dados na agenda pública indica que o Supremo precisará lidar de forma direta com o desgaste institucional para recuperar a confiança da população. As próximas decisões do plenário e a eventual aprovação de novas regras de conduta serão decisivas para medir a capacidade de autorregulação da corte perante o escrutínio dos cidadãos.

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