Mares da Europa batem recorde térmico e ameaçam pesca tradicional

Temperatura média de 21,6 °C nos meses de verão destruiu bancos de algas e alterou a fauna marinha em várias regiões do continente.

Da
Redação
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Mares da Europa registraram as maiores temperaturas de verão desde o início dos dados por satélite em 1982.Reuters
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As águas europeias registraram os meses de verão mais quentes desde o início dos registros por sensores de satélite em 1982, conforme dados analisados sobre a temperatura da superfície do mar. O aquecimento acentuado altera ecossistemas marinhos cruciais e ameaça estoques pesqueiros tradicionais em várias regiões do continente.

Em conjunto, os mares europeus alcançaram uma média de 21,6 °C entre os meses de junho e agosto, configurando a marca mais alta em 45 anos de observações. Cientistas apontam que as ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes e intensas devido ao acúmulo de calor nos oceanos, que absorvem a maior parte das emissões globais de gases de efeito estufa.

Esse cenário sem precedentes altera profundamente a dinâmica biológica dos oceanos e impõe perdas drásticas para comunidades costeiras que dependem da extração tradicional de recursos marinhos para sobreviver.

Calor extremo no golfo

Uma das áreas mais afetadas foi o Golfo da Biscaia, situado entre a costa atlântica da França e da Espanha. A região registrou temperatura média de 21,4 °C no trimestre de verão, superando em mais de 2,4 °C a média histórica registrada entre 1991 e 2020.

Medições da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA indicam que os termômetros marinhos atingiram o pico de 23,2 °C em meados de agosto na baía. Na década de 1980, o local registrava poucos dias de ondas de calor por ano, mas contabilizou 185 dias sob essas condições até o final de agosto.

O aquecimento prolongado provocou o desaparecimento de cerca de 95% dos grandes bancos de algas marrons nas Astúrias desde 2010. Essas florestas subaquáticas funcionavam como berçários vitais e fontes de alimento para espécies que sustentam a pesca artesanal local.

Pescadores buscam recuperação

Pescadores e pesquisadores uniram esforços para tentar restaurar os ecossistemas destruídos por meio do plantio de mudas de algas cultivadas em laboratório. Associações locais transportam equipes para lançar pedras com sementes nas águas da Galiza.

A alteração térmica ameaça comunidades que sobrevivem da pesca e da coleta de mariscos há gerações. Além da perda de algas, pescadores relatam a chegada em massa de espécies de águas mais quentes, como a caravela-portuguesa e o peixe-gatilho.

Essas novas espécies competem diretamente com os recursos nativos, agravando a situação econômica de famílias que dependem da coleta tradicional de ouriços-do-mar e mariscos na costa espanhola.

Explosão altera polvos

Em contraste com a escassez de mariscos no sul, pescadores do sul da Inglaterra enfrentam uma explosão na captura de polvo-comum no Canal da Mancha. O volume capturado saltou de menos de 30 toneladas anuais para milhares de toneladas recentes.

O fenômeno ocorre porque o Canal da Mancha tem permanecido sob ondas de calor por cerca de seis meses ao ano desde 2022. A proliferação gerou um mercado lucrativo no sul da Europa para a espécie, que antes raramente sobrevivia às temperaturas frias da região.

Por outro lado, predadores vorazes como o polvo representam uma ameaça direta a lagostas, caranguejos e vieiras locais. Estimativas apontam que a invasão de polvos pode causar perdas expressivas nas capturas de mariscos no Reino Unido.

Governo contabiliza perdas

A Organização de Gestão Marinha do Reino Unido indicou que a captura de polvo ultrapassou 3.000 toneladas recentemente. Especialistas calculam que o avanço descontrolado da espécie gera prejuízos milionários na pesca de mariscos na região.

O desequilíbrio ecológico gerado pelo aquecimento global consolida uma transformação irreversível na economia pesqueira europeia. Governos e comunidades locais tentam desenhar estratégias de adaptação diante da nova realidade climática dos oceanos.

A revisão contínua dos dados científicos reforça a urgência de medidas globais de mitigação para conter o avanço térmico nos mares. Caso contrário, a tendência é de aprofundamento das perdas econômicas e ecológicas em todo o litoral europeu.

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