O papa Leão XIV instou a Igreja Católica a admitir suas próprias falhas e a curar feridas profundas infligidas em seu próprio seio, durante discurso realizado neste domingo (27) em Lourdes, na França. A declaração ocorreu poucas horas antes de um encontro fechado com vítimas de abuso infantil cometido por membros do clero no país europeu.
Dirigindo-se a uma multidão estimada em 150 mil pessoas em um campo próximo ao santuário, o pontífice afirmou que a instituição religiosa precisa ter coragem de encarar o próprio passado. O primeiro papa norte-americano da história destacou que a busca por reparação passa necessariamente pela humildade diante dos erros cometidos.
Pontífice aborda escândalos na França
O líder católico realiza uma viagem de quatro dias e três cidades à França, período em que também reforçou apelos públicos para que o mundo repense o desenvolvimento da inteligência artificial. No dia anterior, ele reuniu cerca de 800 mil pessoas para uma missa ao ar livre na Champs-Élysées, em Paris, marcando a agenda de compromissos oficiais.
Líderes locais da Igreja esperam que a presença do papa ajude a restaurar a imagem da instituição após a divulgação de um relatório alarmante em 2021. O documento revelou que cerca de 330 mil crianças francesas foram vítimas de abuso por parte de membros do clero e líderes leigos católicos ao longo de sete décadas.
Em uma reunião anterior realizada a portas fechadas com bispos franceses, Leão mencionou diretamente o flagelo doloroso dos abusos cometidos contra menores. Ele agradeceu aos religiosos pelas medidas corajosas adotadas para enfrentar os escândalos e os incentivou a reforçar as iniciativas de proteção e vigilância contínua.
Vítimas mantêm ceticismo institucional
O papa Leão XIV já havia pedido desculpas diretamente por escândalos de abuso que prejudicaram a credibilidade da Igreja em âmbito global, cobrando reparações aos sobreviventes durante passagem pela Espanha em junho. A agenda deste domingo incluiu um encontro a portas fechadas com sete vítimas francesas de abusos cometidos por membros do clero.
Apesar do gesto, alguns sobreviventes expressaram ceticismo quanto à possibilidade de a reunião resultar em mudanças estruturais rápidas por parte da hierarquia eclesiástica. Representantes de associações locais apontam que os avanços ocorrem de maneira considerada lenta diante da gravidade das denúncias acumuladas ao longo dos anos.
O bispo Pierre-Antoine Bozo, porta-voz dos episcopados locais, avaliou que o desejo do pontífice de realizar o encontro demonstra que o tema não pode ser ignorado pela instituição. Segundo ele, a proteção aos menores deve permanecer permanentemente entre as principais preocupações da liderança católica.
Mosaicos geram polêmica em Lourdes
O itinerário papal na França compreendeu eventos em Lourdes, cidade nos Pireneus que atrai milhões de peregrinos anualmente em busca do santuário dedicado à Virgem Maria. O local, contudo, carrega ligações recentes com controvérsias que têm perseguido o Vaticano devido a denúncias contra artistas ligados à Santa Sé.
A fachada do santuário apresenta mosaicos criados pelo padre Marko Rupnik, artista religioso que enfrenta acusações graves de abuso sexual apresentadas por mais de 20 mulheres. Para a visita do papa, as grandes obras de arte sacra foram cobertas com amplas lonas de tom amarelo suave, evitando exposição direta durante o trajeto oficial.
Cinco supostas vítimas de Rupnik haviam enviado uma carta aberta ao pontífice dias antes, criticando duramente o andamento dos processos canônicos no Vaticano. Durante o trajeto de papamóvel, o líder católico passou próximo à fachada alterada, enquanto mantinha compromissos de acolhimento a peregrinos enfermos na cidade.
Defesa da vida e da saúde
Durante sua estadia no santuário francês, o papa voltou a enfatizar a oposição da Igreja Católica a iniciativas de morte assistida. A manifestação ocorreu dois meses após a França instituir o direito legal à morte para pessoas com doenças incuráveis, pauta que mobiliza debates intensos no país.
Leão argumentou que a forma como o santuário acolhe peregrinos doentes contrasta diretamente com as tendências contemporâneas de redefinição do valor da vida humana. O pontífice sustentou que a assistência espiritual e o cuidado aos vulneráveis continuam sendo pilares inegociáveis da doutrina católica diante dos desafios sanitários modernos.
A passagem pela França consolidou a estratégia do Vaticano de combinar grandes atos públicos de massa com discussões de bastidor sobre crises institucionais. A movimentação episcopal agora se volta para a implementação prática das diretrizes de proteção cobradas pelo papa durante os encontros fechados.


