Investigações baseadas em registros oficiais apontam que mais de 30 mil pessoas que se autodeclararam não cidadãos podem ter sido incluídas em listas eleitorais em cerca de uma dúzia de estados americanos desde o ano 2000. O problema decorre principalmente de falhas de software e erros administrativos cometidos durante o processamento de pedidos de carteira de motorista e documentos de identidade estaduais.
Os registros incorretos atingem estados governados tanto pelo Partido Democrata quanto pelo Partido Republicano. Especialistas apontam, no entanto, que o volume é proporcionalmente reduzido frente ao universo de mais de 170 milhões de eleitores registrados em todo o território nacional, o que afasta o impacto expressivo em pleitos de âmbito federal.
O levantamento detalhado utilizou dados coletados pelo Center for Election Innovation & Research, uma organização sem fins lucrativos que acompanha denúncias de registro e votação de pessoas não cidadãs. As informações foram posteriormente verificadas por meio de contatos com autoridades estaduais, análise de registros judiciais e reportagens da mídia local.
Nova Jersey relata falha
Entre os episódios recentes de maior repercussão, o estado de Nova Jersey anunciou que uma falha tecnológica adicionou cerca de 6,6 mil não cidadãos às listas eleitorais entre junho de 2023 e junho de 2024. O equívoco ocorreu mesmo após os solicitantes responderem de maneira negativa quando questionados sobre a cidadania ao requererem documentos de habilitação e identidade.
Erros burocráticos semelhantes foram documentados em pelo menos outros 11 estados norte-americanos ao longo das últimas duas décadas. A lista de localidades afetadas inclui territórios como Califórnia, Illinois, Iowa, Nevada, Ohio, Oregon, Pensilvânia, Dakota do Sul, Texas, Utah e Virgínia, abrangendo diferentes perfis administrativos estaduais.
Os dados disponíveis continuam provisórios e sujeitos a revisões contínuas por parte das autoridades locais. Por esse motivo, as estatísticas exatas podem sofrer oscilações conforme os estados conduzem auditorias internas em seus cadastros e bases de dados.
Origem nos órgãos de trânsito
As apurações indicam que falhas burocráticas em órgãos encarregados da emissão de documentos de trânsito constituem a principal origem de cadastros indevidos, afastando a hipótese de articulações coordenadas para burlar o sistema. Especialistas afirmam que o registro automático vinculado à habilitação expõe os cadastros a incompatibilidades técnicas.
Don Palmer, pesquisador jurídico sênior para integridade eleitoral na Heritage Foundation e ex-presidente da Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA, aponta que os departamentos de trânsito costumam falhar no processamento de dados. Segundo ele, esses órgãos frequentemente cometem desvios e não tratam a elegibilidade eleitoral com o mesmo rigor das instâncias especializadas.
Os órgãos responsáveis pela emissão de carteiras de motorista frequentemente cometem erros e, muitas vezes, não levam isso tão a sério quanto as autoridades eleitorais.”
Don Palmer, pesquisador jurídico
Palmer acrescenta que as administrações estaduais precisam intensificar os esforços de verificação para assegurar que apenas cidadãos aptos permaneçam nos cadastros oficiais de votação. Até o momento, as investigações não conseguiram determinar com precisão quantas dessas pessoas com registro inadequado chegaram efetivamente a depositar votos nas urnas.
Debate político e impacto
O tema alimenta disputas políticas em Washington, onde o ex-presidente Donald Trump e seus aliados sustentam, sem apresentar provas documentadas, que o voto de não cidadãos integra uma conspiração articulada pelos democratas. O grupo pressiona o Legislativo por regras mais rígidas de comprovação de cidadania.
Em contrapartida, analistas ponderam que as novas propostas legislativas para exigir comprovação documental rigorosa no momento do alistamento eleitoral podem não solucionar o cerne do problema. Como a origem das inclusões indesejadas está em falhas de processamento nos balcões de trânsito, as exigências adicionais enfrentariam barreiras operacionais semelhantes.
As discussões ganham força com a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato, momento em que o controle do Congresso americano entra em disputa acirrada entre as principais siglas partidárias do país.
Próximos passos e controle
As autoridades eleitorais de diferentes estados continuam revisando os cadastros para expurgar registros inconsistentes identificados por meio de auditorias cruzadas. A integração de bases de dados estaduais segue como ferramenta central para monitorar eventuais distorções remanescentes nos sistemas informatizados.
Especialistas em direito eleitoral reforçam que a melhoria na comunicação entre os departamentos de trânsito e os secretariados de estado é medida urgente para evitar novas falhas sistêmicas. A confiabilidade do cadastro de eleitores permanece no centro das atenções institucionais nos Estados Unidos.
Novas diretrizes operacionais devem ser debatidas pelos legislativos estaduais nos próximos meses para mitigar falhas técnicas. O monitoramento contínuo visa garantir maior precisão e segurança aos dados de eleitores registrados em todo o país.


