O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou a empresários em São Paulo nesta sexta-feira (25) que pretende combinar responsabilidade fiscal, estabilidade institucional e defesa da soberania em um eventual novo mandato. O encontro reuniu mais de 500 executivos e representantes de grandes empresas no hotel Tivoli Mofarrej.
A mensagem buscou responder a dúvidas do setor privado sobre juros, dívida pública, previsibilidade regulatória e segurança jurídica. Interlocutores do governo já haviam antecipado que Lula tentaria transmitir a ideia de continuidade institucional e ausência de mudanças inesperadas na condução da economia.
Foco recaiu sobre previsibilidade
O jantar foi organizado por Esfera Brasil, Prerrogativas e Parlatório e reuniu representantes de setores como varejo, construção, infraestrutura, finanças e indústria. A lista de convidados cresceu tanto que o local e o formato do evento precisaram ser alterados.
Para o empresariado, previsibilidade significa conhecer as regras sob as quais investimentos, crédito e contratos serão realizados. Por isso, temas como juros, dívida, política fiscal, ambiente regulatório e funcionamento das instituições estavam entre os assuntos esperados para a noite.
Lula buscou associar estabilidade à manutenção das regras econômicas e ao respeito aos marcos institucionais. A mensagem também procurou diferenciar críticas pontuais a decisões econômicas de uma ruptura com órgãos autônomos, como o Banco Central.
Em declarações recentes, o presidente disse que continua insatisfeito com a taxa básica de juros, mas afirmou respeitar o mandato da autoridade monetária. Também declarou que pretende manter responsabilidade fiscal, tema recorrente nas conversas do governo com empresários ao longo de 2026.
Responsabilidade fiscal entrou no centro
O compromisso fiscal ocorre dentro do regime instituído pela Lei Complementar 200, de 2023. O texto determina que a política fiscal da União seja conduzida de forma a manter a dívida pública em níveis sustentáveis e prevê mecanismos de ajuste quando as metas não são cumpridas.
O governo enfrenta, ao mesmo tempo, pressão por expansão de programas sociais e cobrança por melhora nas contas públicas. Esse equilíbrio foi uma das principais preocupações levadas por representantes do setor privado aos encontros recentes com integrantes do Executivo.
Nos últimos meses, Lula voltou a defender que responsabilidade fiscal não significa abandonar políticas de renda, investimento e inclusão. Críticos do governo, porém, têm questionado o ritmo de crescimento das despesas e a capacidade de produzir resultados primários compatíveis com a estabilização da dívida.
O próprio debate fiscal ganhou peso adicional após medidas com impacto relevante sobre o orçamento, como reajustes de benefícios e programas de crédito. Para investidores e empresários, o ponto central é a capacidade de financiar essas políticas sem elevar de forma persistente a percepção de risco.
Estabilidade virou argumento econômico
Lula também apresentou estabilidade institucional como um elemento necessário para decisões de investimento de longo prazo. Segurança jurídica, previsibilidade das regras e funcionamento regular das instituições foram associados à capacidade de atrair capital e reduzir incertezas.
Esse discurso aparece em outras manifestações recentes do presidente, inclusive em defesa da independência entre os Poderes e do respeito à Constituição. O governo procura vincular estabilidade política à continuidade de investimentos privados e públicos em infraestrutura, indústria e serviços.
O tema também dialoga com a preocupação empresarial diante de mudanças regulatórias de grande impacto, como a ofensiva contra as apostas online anunciada no mesmo dia. A reação às bets mostrou que decisões consideradas positivas por alguns setores podem, ao mesmo tempo, gerar dúvidas sobre contratos em vigor e transição regulatória.
Soberania completou a mensagem
A defesa da soberania foi incorporada por Lula à agenda econômica e institucional. Em discursos recentes, o presidente tem usado o termo para tratar de autonomia decisória do país, política industrial, tecnologia, sistema financeiro e relações internacionais.
Na Assembleia Geral da ONU, três dias antes do jantar, Lula voltou a rejeitar pressões externas sobre decisões brasileiras e relacionou soberania a democracia e desenvolvimento. Esse discurso também aparece na defesa do Pix, na política para minerais críticos e na discussão sobre infraestrutura digital.
Para empresários, o efeito econômico desse posicionamento depende da forma como ele se traduz em regras de comércio, investimento e relações com outros países. A defesa de interesses nacionais pode coexistir com abertura a capital externo, desde que haja clareza regulatória e estabilidade contratual.
O jantar desta sexta-feira funcionou, assim, como mais uma tentativa de aproximação entre Lula e o setor privado em plena campanha eleitoral. O presidente buscou mostrar que políticas sociais e soberania podem conviver com disciplina fiscal, estabilidade e previsibilidade, enquanto empresários mantêm cobranças por resultados concretos nas contas públicas e no ambiente de negócios.


