A agência da ONU para a infância relatou um aumento expressivo na desnutrição aguda entre crianças no Iêmen, impulsionado pela intensificação dos combates da guerra civil que prejudicam o funcionamento de serviços essenciais de saúde e o acesso a centros de tratamento especializados. A retoma da violência após um período de trégua tem agravado drasticamente o cenário humanitário em várias regiões do país, gerando alertas severos de organismos internacionais sobre a sobrevivência de menores de idade em áreas conflagradas.
Equipes móveis de nutrição do Unicef avaliaram cerca de 2.900 crianças em áreas acessíveis recentemente e constataram que mais de um quarto delas apresentava algum nível de desnutrição aguda. Desse total verificado nas avaliações de campo, aproximadamente 200 ocorrências foram classificadas na categoria mais crítica, correspondente à desnutrição aguda grave, exigindo atendimento médico imediato e recursos terapêuticos contínuos.
Conflito intensifica crise humanitária
A guerra civil no Iêmen opõe as forças governamentais iemenitas, que contam com o apoio da Arábia Saudita, aos rebeldes Houthis, apoiados pelo Irã. O confronto armado intensificou-se drasticamente após o fim de um período de relativa estagnação que havia sido proporcionado por uma trégua formalizada no ano de 2022.
Nas últimas semanas, a violência escalou consideravelmente ao longo das antigas linhas de frente da disputa, com registros de intensos confrontos nos arredores da cidade de Taiz, localizada no sudoeste do território iemenita. O avanço militar dos Houthis em direção ao sul, rumo à costa do Mar Vermelho, acabou por desencadear novos deslocamentos populacionais em grande escala.
Mais de 133 mil pessoas foram forçadas a deixar suas residências em decorrência direta da nova onda de hostilidades, sendo que algumas famílias buscaram refúgio inclusive na África através da travessia do Mar Vermelho. A situação afeta de maneira desproporcional a população infantil, que sofre com a falta de saneamento, abrigo adequado e alimentos nutritivos.
Milhares de crianças desalojadas
Apenas nas últimas três semanas, o Unicef calculou que cerca de 71 mil crianças precisaram abandonar suas casas às pressas para escapar da rota dos combates. O deslocamento interno em massa dificulta o monitoramento nutricional contínuo e rompe o acesso a redes básicas de apoio humanitário.
O organismo das Nações Unidas relatou que novos registros de desnutrição chegam cotidianamente às unidades operacionais instaladas nas regiões que recebem contingentes de deslocados. No entanto, as equipes humanitárias enfrentam barreiras operacionais severas que limitam a circulação em grande parte do território nacional.
As restrições de acesso impostas pela dinâmica do conflito armado significam que os dados divulgados refletem apenas um panorama parcial da crise. Organizações de socorro humanitário temem que a magnitude real do problema seja consideravelmente maior do que os indicadores conseguem mensurar atualmente.
Projeções alarmantes para menores
As estimativas oficiais divulgadas pelo Unicef apontam que aproximadamente 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos deverão sofrer com quadros de desnutrição aguda ao longo deste ano no Iêmen. Desse contingente total estimado, mais de meio milhão de menores corre o risco de desenvolver formas graves da condição.
O colapso progressivo da infraestrutura básica do país, somado à escassez de financiamento internacional para operações de socorro, restringe a capacidade de resposta das agências humanitárias. A ausência de uma solução política negociada para o conflito mantém a população infantil sob risco permanente de inanição e doenças evitáveis.
Especialistas em direitos humanos e ajuda humanitária reforçam que a estabilização da segurança é condição indispensável para a entrega regular de suprimentos terapêuticos. Sem corredores humanitários seguros, a assistência permanece limitada às poucas zonas que ainda contam com a presença de equipes do Unicef.
Fatores estruturais do colapso
O conflito iemenita é amplamente reconhecido como uma das piores crises humanitárias do planeta na atualidade, acumulando anos de destruição sistêmica. A desnutrição infantil não surge isoladamente, mas como consequência direta da falência econômica, da hiperinflação e da interrupção na distribuição de salários a servidores públicos e profissionais de saúde.
Hospitais, postos de atendimento nutricional e escolas operam com recursos extremamente precários, muitas vezes danificados por bombardeios ou saqueados. A falta de combustível para geradores e para o transporte de água potável agrava o quadro sanitário, facilitando surtos de enfermidades que debilitam ainda mais o organismo de crianças já enfraquecidas pela fome.
Organismos internacionais continuam apelando por um cessar-fogo duradouro e por garantias de acesso desimpedido para comboios de ajuda alimentar. A comunidade global é cobrada a intensificar o suporte financeiro para evitar que a desnutrição atinja patamares ainda mais irreversíveis nas zonas mais vulneráveis do país.


