Etiópia volta à guerra após acordo de paz desabar quatro anos depois

Confrontos na região de Tigray e novas alianças armadas rompem o pacto mediado pela União Africana em 2022.

Da
Redação
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A região de Tigray, no norte da Etiópia, volta a registrar confrontos armados após o colapso do acordo de paz de 2022.3/11/2021 REUTERS/Tiksa Negeri
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A Etiópia voltou a registrar confrontos armados de grandes proporções após quase quatro anos de aparente estabilidade. Forças da região de Tigray tomaram o controle de três aeroportos operados pelo governo federal, enquanto combates intensos eclodiram nas áreas vizinhas de Amhara e Afar. A retomada das hostilidades rompeu oficialmente o acordo de paz assinado em novembro de 2022, que pretendia pacificar a nação africana após um conflito devastador.

A escalada militar ocorre após meses de deterioração nas negociações entre o governo central, liderado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed, e lideranças da Frente Popular de Libertação do Tigré (TPLF). Ambas as partes trocaram acusações sobre quem teria deflagrado o novo ciclo de violência, intensificando a instabilidade em um país que já enfrenta frentes de combate em outras províncias e graves crises humanitárias decorrentes de anos de confrontos.

Fim do acordo de paz

O pacto interrompido havia sido mediado pela União Africana na cidade de Pretória, na África do Sul, em 2 de novembro de 2022. Pelo entendimento original, as forças tigrinas deveriam entregar as armas e a administração federal retomaria o controle da região, permitindo a volta de serviços essenciais e o retorno de milhões de pessoas deslocadas pela guerra anterior, que deixou uma estimativa de cerca de 600 mil mortes.

No entanto, analistas apontam que o compromisso foi sistematicamente esvaziado ao longo dos anos seguintes. Disputas territoriais pendentes, especialmente em áreas reivindicadas tanto por Tigray quanto por Amhara, continuaram sem solução definitiva. Além disso, o governo central foi acusado de falhar no cumprimento de pontos centrais, enquanto a liderança regional retomou o controle administrativo e reorganizou suas estruturas militares.

A situação interna da TPLF também se agravou devido a profundas divisões de poder. Facções rivais disputaram a liderança da província, resultando em trocas e disputas na administração interina local. Essa fragmentação política interna enfraqueceu ainda mais os mecanismos de diálogo com Adis Abeba e abriu espaço para novas coalizões com antigos rivais do governo central.

Nova aliança contra governo

No cenário mais recente, a TPLF uniu-se a outros seis grupos armados em uma nova frente que busca derrubar a administração de Abiy Ahmed. O bloco inclui organizações que atuaram em lados opostos durante a última guerra, como o Movimento Nacional Fano de Amhara e o Exército de Libertação Oromo. Representantes tigrinos declararam publicamente que o acordo de Pretória não possui mais validade diante das novas circunstâncias políticas.

Apesar da cooperação militar e tática declarada entre as facções opositoras, especialistas em geopolítica regional avaliam que a união possui caráter frágil. Os grupos mantêm divergências históricas e disputas territoriais antigas, como o controle sobre o oeste de Tigray. A aliança é vista predominantemente como uma estratégia temporária de conveniência diante de um adversário comum, e não como um arranjo político duradouro.

O governo federal reagiu às movimentações acusando os grupos de atuarem de forma coordenada com apoio financeiro estrangeiro, especificamente da vizinha Eritreia. As relações entre Adis Abeba e Asmara enfrentam novos desgastes decorrentes de pressões geopolíticas recentes na região do Chifre da África, incluindo o acesso estratégico ao Mar Vermelho.

Repercussão e alertas

Diante da rápida deterioração da segurança, a União Africana classificou a tomada dos aeroportos como uma infração direta ao pacto de Pretória e exigiu uma desescalada imediata. O organismo continental pediu o envolvimento de mediadores internacionais para retomar as negociações e evitar que o conflito atinja proporções ainda mais catastróficas para a população civil.

Especialistas em conflitos locais alertam que uma nova guerra aberta na Etiópia pode ser significativamente mais sangrenta do que a travessia entre 2020 e 2022. Comunidades locais ainda tentam se reerguer da fome e da destruição acumuladas no passado, enquanto as forças armadas federais continuam sobrecarregadas com rebeliões simultâneas em múltiplos pontos do território nacional.

O acordo não ruiu da noite para o dia; ele foi sistematicamente esvaziado ao longo de três anos.”

Surafel Getahun, pesquisador de geopolítica etíope

A companhia aérea Ethiopian Airlines suspendeu temporariamente as operações comerciais para a região afetada após a perda de controle dos terminais aeroportuários. Organizações humanitárias expressam forte preocupação com o isolamento de comunidades vulneráveis e com a possível interrupção de comboios de ajuda alimentar em uma das áreas mais sensíveis do continente africano.

Governo enfrenta nova crise

A persistência da violência na Etiópia repercute em todo o leste da África, uma região já impactada por crises humanitárias e conflitos no Sudão vizinho, além de velhas disputas geopolíticas pelo controle de recursos hídricos na bacia do rio Nilo. O enfraquecimento institucional etíope reduz as margens de manobra diplomática e eleva os riscos de confrontos transfronteiriços.

Organismos de monitoramento de conflitos apontam que, embora alguns grupos da nova aliança opositora tenham capacidade militar limitada ou atuação restrita a bolsões locais, a convergência de forças armadas autônomas ameaça a integridade territorial do Estado etíope. A ausência de canais efetivos de diálogo político deixa o futuro imediato do país sob forte incerteza institucional.

A comunidade internacional acompanha com apreensão os desdobramentos militares na região norte, cobrando contenção de todas as partes envolvidas. Para analistas locais, o diálogo inclusivo continua sendo a única alternativa viável para evitar o colapso definitivo da paz e conter uma nova onda de destruição e deslocamentos em massa.

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