A Perícia Forense do Ceará (Pefoce) concluiu que a estudante Isabelle Caracristi, de 22 anos, cometeu suicídio ao se lançar do rooftop do prédio onde morava, no bairro Aldeota, em Fortaleza. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (23) durante uma coletiva conjunta com a Polícia Civil, que detalhou os resultados de onze laudos técnicos sobre o caso.
A investigação policial descartou completamente a hipótese de homicídio ou de que a jovem tenha sido empurrada por terceiros. No entanto, o inquérito continua em andamento para apurar a responsabilidade do companheiro da vítima, que permanece preso preventivamente sob suspeita de crimes que antecederam a tragédia.
Laudos descartam homicídio na queda
De acordo com os peritos responsáveis pelo caso, os exames balísticos, físicos e de trajetória indicam uma precipitação voluntária. Os cálculos demonstraram que Isabelle percorreu uma trajetória de queda predominantemente vertical, atingindo o solo após cerca de três segundos de movimento na área externa do edifício residencial.
A análise minuciosa do apartamento do casal não encontrou sinais de arrombamento, luta corporal ou desordem generalizada. Os legistas também confirmaram que o corpo da estudante não apresentava lesões de defesa, marcas de esganadura ou indícios de agressões físicas sofridas antes do impacto fatal ocorrido no final de setembro de 2026.
Os exames toxicológicos e alcoólicos realizados no corpo da vítima resultaram negativos para substâncias ilícitas e álcool. Os peritos detectaram apenas a presença de carisoprodol, um relaxante muscular que, conforme o depoimento de familiares, já fazia parte do uso médico prévio da jovem de 22 anos.
Estudante passou tempo na cobertura
A cronologia levantada pelas autoridades por meio de câmeras de segurança mostra que Isabelle entrou sozinha no elevador às 19h12, dirigindo-se diretamente para a cobertura do prédio. Ela permaneceu na área do rooftop por aproximadamente uma hora e 28 minutos antes da queda, estimada pelas autoridades policiais às 20h40.
Registros indicam que a estudante manteve o celular em seu poder e chegou a trocar mensagens com conhecidos durante o período em que esteve isolada no andar superior. O aparelho telefônico foi recolhido no local, apesar dos danos causados pelo impacto, e encaminhado para análise técnica detalhada no laboratório de informática forense.
As lentes de segurança do condomínio foram submetidas a auditoria e os arquivos foram considerados íntegros, sem indícios de adulteração. Contudo, o ponto exato da queda não contava com cobertura de câmeras, pois o rooftop e as escadas de emergência do edifício não possuíam equipamentos de videomonitoramento instalados.
Namorado continua preso preventivamente
Apesar da confirmação de que a estudante se lançou do prédio por vontade própria, o namorado dela, João Munhoz Neto, de 34 anos, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça. Ele é investigado por suspeita de violência psicológica, induzimento, instigação ao suicídio e possível obstrução da investigação policial.
A força-tarefa responsável pelo caso aponta que depoimentos colhidos até o momento revelam indícios de um relacionamento pautado por controle, isolamento e atitudes controladoras. A polícia também investiga divergências financeiras e o uso de cartões da vítima dentro do contexto do relacionamento do casal.
Além das acusações sobre o período anterior à morte, a detenção do companheiro fundamentou-se em atos posteriores ao ocorrido. Testemunhas relataram que ele teria tentado apagar vestígios, orientado a portaria a barrar familiares e colocado o imóvel à venda logo após o falecimento da estudante.
Família relata falha em aviso
A mãe da vítima, Isorlanda Caracristi, afirmou publicamente que não foi informada sobre a morte da filha na mesma noite do ocorrido. Devido à falta de contato, ela própria se deslocou até o condomínio no dia seguinte, quando descobriu o falecimento da jovem.
Segundo a família, Isabelle enviou uma mensagem afetuosa para a mãe cerca de quarenta minutos antes de subir para a cobertura. O conteúdo e o horário dos últimos contatos passaram a integrar oficialmente o escopo das diligências conduzidas pelos investigadores da força-tarefa policial.
Até o momento, sete pessoas foram ouvidas no inquérito policial, que tramita sob rigoroso segredo de Justiça. A apuração é realizada de forma integrada pela Delegacia de Defesa da Mulher, pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa e pela delegacia da área.
Perícia conclui onze laudos técnicos
O aparato técnico mobilizado para esclarecer a morte em Fortaleza resultou na emissão de onze laudos periciais distintos. Entre os documentos anexados ao inquérito estão relatórios balísticos, análises toxicológicas, exames necroscópicos e relatórios de engenharia legal do local da ocorrência.
Os investigadores continuam processando o conteúdo extraído dos dispositivos eletrônicos apreendidos com o investigado e com a vítima. Novas orelhas de testemunhas e exames complementares devem ser anexados aos autos nos próximos dias para definir o relatório final do caso.
O inquérito policial busca fechar o cerco sobre a responsabilidade penal nos momentos que antecederam a tragédia, avaliando se a conduta do investigado configurou crime de induzimento ao suicídio tipificado no Código Penal brasileiro.
Força-tarefa investiga gênero
O caso é tratado com prioridade e sob a perspectiva de gênero por uma equipe multidisciplinar especializada em crimes contra a vida e violência doméstica. A atuação conjunta visa esgotar todas as hipóteses sobre o histórico do casal.
A mobilização de órgãos de segurança do Ceará demonstra rigor na apuração de crimes relacionados à violência psicológica. As autoridades ressaltam que o foco atual da investigação reside em determinar se houve pressões determinantes para o desfecho trágico.
O processo segue sob sigilo determinado pela Justiça cearense, resguardando os envolvidos e permitindo a continuidade das diligências sigilosas necessárias para a conclusão da peça acusatória pelo Ministério Público.


