O uso de baterias de grande porte no sistema elétrico brasileiro poderá reduzir em até 50% os cortes de geração de energia renovável, fenômeno conhecido no setor como curtailment. A projeção inédita foi divulgada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico e indica que a efetividade da medida dependerá do leilão previsto para dezembro.
A estimativa foi revelada pelo diretor-geral do ONS, Márcio Rea, durante evento setorial em São Paulo, onde ele destacou que os dispositivos de armazenamento se tornaram vitais para a flexibilidade da rede. O leilão de baterias é tratado pelo mercado como o marco regulatório essencial para atrair investimentos privados bilionários ao setor.
Funcionamento do armazenamento elétrico
As baterias industriais permitem reter o excedente de energia produzido em momentos de pico de irradiação solar ou de forte intensidade dos ventos. Essa reserva pode ser injetada na rede quando a demanda dos consumidores aumenta ou quando a capacidade de produção sofre quedas repentinas.
Esse mecanismo de flexibilidade operacional reduz os desperdícios decorrentes de sobrecargas nas linhas de transmissão e garante maior estabilidade ao suprimento nacional. Na avaliação do operador, a implementação desses dispositivos coloca o Brasil em sintonia com tendências globais de transição energética.
Países como China, Estados Unidos e Austrália já adotam sistemas de armazenamento em larga escala para integrar parques eólicos e solares às suas redes sem comprometer a segurança operacional. O leilão programado para dezembro é tratado como o próximo grande passo regulatório para viabilizar essa infraestrutura no mercado brasileiro.
As baterias vão ajudar bastante também com a questão do curtailment, deve melhorar entre 40% e 50%, a depender do resultado do leilão de baterias, que deve ser bom.
Márcio Rea
Desafios da matriz nacional
Durante as discussões, o diretor-geral do ONS também comentou sobre o leilão de reserva de capacidade realizado recentemente, avaliando que a iniciativa ocorreu em um momento oportuno para o planejamento do setor. No entanto, ele ponderou que a rede elétrica brasileira ainda exige a expansão contínua de sua disponibilidade de potência.
A necessidade de novas fontes despacháveis acompanha o crescimento acelerado da oferta renovável, que traz desafios inerentes à sua intermitência. A gestão adequada dessas variações é apontada como prioridade para evitar gargalos no abastecimento em diferentes regiões do país.
Rea pontuou ainda que a interrupção temporária na geração de usinas limpas não constitui uma exclusividade do Brasil. O fenômeno afeta diversos mercados internacionais que enfrentam o desafio de absorver grandes volumes de energia eólica e solar em suas matrizes.
Perspectivas para o leilão
O leilão de armazenamento previsto para dezembro é visto pelo mercado como o marco regulatório que definirá os modelos de negócios para a entrada dessas tecnologias. A expectativa de atrair investimentos privados recai sobre a definição de diretrizes claras de remuneração e contratação de capacidade.
Especialistas do setor energético apontam que a combinação entre expansão das redes de transmissão e a instalação de baterias em pontos estratégicos pode destravar gargalos históricos. Com isso, o excedente evitado se traduz em maior eficiência econômica para todo o sistema elétrico.
As discussões promovidas no evento reforçam que a modernização do marco regulatório deve caminhar lado a lado com a inovação tecnológica. A meta central é assegurar que a expansão das fontes renováveis ocorra sem penalizar a confiabilidade do fornecimento de eletricidade à sociedade.
Desdobramentos e regulação
A consolidação de um marco regulatório seguro para o armazenamento de energia é considerada um elemento fundamental para destravar novos investimentos no segmento de infraestrutura elétrica. As diretrizes que serão debatidas nos próximos meses vão direcionar a participação de agentes privados na construção de grandes centrais de baterias.
O avanço tecnológico e a queda nos custos globais de fabricação desses equipamentos também ampliam a viabilidade técnica e financeira de projetos voltados para o atendimento de ponta. Representantes da cadeia produtiva acompanham com expectativa a publicação das regras definitivas pelo poder concedente e pelos órgãos reguladores.
Com a proximidade do leilão em dezembro, o setor elétrico brasileiro se mobiliza para ajustar as bases contratuais e garantir que a nova capacidade de armazenamento esteja integrada de forma eficiente às redes de transmissão de alta tensão.


