O presidente do Paraguai, Santiago Peña, pediu nesta quarta-feira a reintegração da Venezuela ao bloco comercial sul-americano Mercosul, ao se dirigir aos líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU. A manifestação marca um movimento diplomático significativo na política da América do Sul, buscando reaproximar o país caribenho das principais economias do bloco regional.
A Venezuela foi afastada das atividades do bloco em 2016 por tempo indeterminado. Na ocasião, a punição foi fundamentada no Protocolo de Ushuaia, que estipula que qualquer ruptura da ordem democrática em um Estado-membro funciona como um obstáculo intransponível para a continuidade do processo de integração regional e comercial.
Antes de levar o tema à tribuna da ONU, o governo paraguaio havia feito consultas prévias ao Palácio do Planalto sobre a possibilidade de convidar a Venezuela para a Cúpula do Mercosul ocorrida em junho, na capital paraguaia. Segundo informações de bastidores, a gestão brasileira avaliou positivamente a sinalização, compreendendo que a reintegração poderia favorecer a estabilidade econômica e política na região.
Paraguai lidera defesa venezuelana
A iniciativa do presidente Santiago Peña ocorre em um cenário de transformações políticas na Venezuela. O país passou a ser liderado por Delcy Rodríguez após a captura de Nicolás Maduro em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos em janeiro de 2026.
Apesar da manutenção da estrutura administrativa anterior pelo governo de Rodríguez, analistas apontam que a nova conjuntura e a postura de aliados internacionais criam margem para que os membros do Mercosul reabram o debate sobre o cumprimento das exigências democráticas e institucionais estabelecidas anos atrás.
O Paraguai, que mantém alinhamento estreito com os Estados Unidos, posiciona-se agora como um articulador fundamental para tentar reverter o isolamento comercial e diplomático imposto aos venezuelanos na última década.
Venezuela busca diálogo com Brasil
Em paralelo ao discurso na ONU, o governo comandado por Delcy Rodríguez tentou estabelecer uma aproximação formal com representantes do governo brasileiro durante a semana de alto nível em Nova York. A gestão venezuelana solicitou uma reunião bilateral, mas o encontro acabou não se concretizando.
Fontes oficiais indicaram que a incompatibilidade de agendas impediu a realização da conversa. No entanto, autoridades brasileiras ressaltaram que ainda pairavam dúvidas se o pleito venezuelano era voltado estritamente para um diálogo direto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou para um alinhamento em nível de chancelarias.
O governo brasileiro recebeu dezenas de solicitações de encontros bilaterais durante o evento internacional, mas a agenda oficial priorizou compromissos específicos de interesse estratégico imediato para a política externa e comercial do país.
Lula prioriza pauta uruguaia
Diante da alta demanda por reuniões bilaterais em solo americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou apenas um encontro oficial de destaque durante a passagem por Nova York. A reunião exclusiva ocorreu com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi.
O diálogo com o mandatário uruguaio foi colocado como prioridade na agenda devido ao fato de o Uruguai ocupar atualmente as presidências rotativas tanto do Mercosul quanto da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos.
Além dos temas institucionais e geopolíticos relativos aos blocos regionais, os dois líderes aproveitaram a oportunidade para debater questões comerciais sensíveis, com destaque para as cotas de exportação de carne entre os países vizinhos.
Histórico de suspensão regional
A exclusão da Venezuela do Mercosul em 2016 marcou um dos momentos mais tensos da diplomacia sul-americana recente. Os chanceleres dos países fundadores exigiram na época uma série de medidas corretivas, incluindo a libertação de opositores presos, a restauração das prerrogativas do Poder Legislativo e o retorno à normalidade do calendário eleitoral.
O cumprimento dessas condicionalidades sempre foi considerado o principal entrave para qualquer tentativa de reaproximação. Com a mudança na configuração de poder no país caribenho e a nova pressão diplomática exercida pelo Paraguai, o futuro da participação venezuelana volta a ser o centro das discussões entre os sócios sul-americanos.
Apesar dos acenos políticos recentes e da avaliação de que a estabilização regional é desejável, os demais governos do bloco ainda precisam alinhar posições jurídicas e diplomáticas para decidir se os requisitos do Protocolo de Ushuaia foram devidamente satisfeitos para viabilizar o retorno formal.


