Piddington, uma pequena vila de Oxfordshire, no sul da Inglaterra, escolheu uma forma incomum de protestar contra o governo britânico: seus moradores votaram simbolicamente pela separação do Reino Unido. A consulta não tem efeito jurídico e não transforma a localidade em um país, mas foi organizada para chamar atenção para o plano do Ministério do Interior de instalar um grande centro de acomodação para solicitantes de asilo em uma antiga área militar próxima.
A votação ocorreu em 15 de setembro. Dos 312 votos registrados, 285 foram favoráveis à saída simbólica do Reino Unido, 26 foram contrários e uma cédula foi anulada. Piddington tem cerca de 350 moradores, segundo a reportagem da BBC reproduzida pela Folha.
O motivo do protesto é o chamado Site A do antigo complexo militar de Bicester. O pedido formal apresentado pelo governo prevê acomodação temporária para até 1.256 solicitantes de asilo, além de instalações de saúde, bem-estar, segurança, áreas de convivência, estacionamento e infraestrutura de tratamento de águas residuais.
Votação dá recado simbólico
O referendo foi organizado pelo conselho paroquial, estrutura administrativa local. A pergunta sobre a separação funcionou como instrumento de pressão política, não como processo constitucional de independência.
A diferença no resultado foi expressiva. Cerca de nove em cada dez votos válidos foram favoráveis à saída simbólica. O objetivo declarado pelos organizadores era ampliar a visibilidade nacional para uma disputa que até então estava concentrada em Oxfordshire.
O presidente do conselho paroquial, Tim McNally, classificou a votação como um exercício de participação local. Outros organizadores chegaram a usar de forma bem-humorada a expressão “Principado de Piddington” para representar a campanha.
A independência não produz efeito legal; o peso do resultado está na mensagem política enviada ao governo sobre a falta de consulta prévia percebida pelos moradores.
| Resultado do referendo simbólico e Votos | |
|---|---|
| Resultado do referendo simbólico | Votos |
| Favoráveis à saída | 285 |
| Contrários | 26 |
| Cédula anulada | 1 |
| Total registrado | 312 |
Fonte: Piddington Parish Council, conforme resultado divulgado localmente.
Centro prevê até 1.256 vagas
O projeto oficial é uma solicitação de desenvolvimento urgente da Coroa, protocolada em 2 de setembro. O terreno fica no antigo Bicester Garrison Site A, entre Piddington e as localidades de Upper e Lower Arncott.
O plano prevê reaproveitar parte das instalações militares, demolir estruturas existentes e instalar unidades modulares. A documentação registra capacidade máxima para 1.256 usuários, todos em acomodação não detentiva.
Também estão previstas instalações de saúde e assistência social, infraestrutura de segurança, vias internas, estacionamento, alojamento de funcionários e áreas abertas de recreação. O conselho distrital de Cherwell atua como consultado, mas a decisão final cabe ao governo central.
| Item do projeto e Informação oficial | |
|---|---|
| Item do projeto | Informação oficial |
| Capacidade máxima | 1.256 pessoas |
| Local | Antigo Bicester Garrison Site A |
| Tipo de uso | Acomodação temporária para solicitantes de asilo |
| Pedido protocolado | 2 de setembro de 2026 |
| Autor da solicitação | Secretário de Estado |
Fonte: Cherwell District Council.
Moradores criticam falta de consulta
O conselho paroquial afirma que sua campanha não é formalmente baseada em hostilidade contra pessoas que buscam refúgio. O argumento divulgado pelo órgão é que uma decisão desse porte deveria ter sido discutida com a comunidade antes do anúncio público.
Entre as preocupações listadas estão capacidade dos serviços de saúde, policiamento, transporte, segurança comunitária e impacto sobre a infraestrutura local. Moradores também questionam a escala do centro em comparação com o tamanho da própria vila.
Mais de 130 mulheres de Piddington enviaram uma carta a parlamentares manifestando preocupação com segurança. Essas avaliações representam a percepção das signatárias e não demonstram, por si só, que a instalação de solicitantes de asilo aumentaria a criminalidade.
Entidades de apoio a refugiados também levantaram críticas ao projeto, mas por razões diferentes. A organização Asylum Welcome apontou que a localização pode deixar os residentes distantes de serviços e apoio necessários, além de criar pressão adicional sobre estruturas públicas locais.
Governo mantém o projeto
O governo britânico não anunciou recuo. A secretária de Cultura, Lisa Nandy, afirmou que reconsiderar o local transferiria a responsabilidade para outras comunidades que já recebem solicitantes de asilo.
O primeiro-ministro Andy Burnham disse compreender a intensidade da reação local, mas defendeu uma distribuição considerada justa pelo governo. A administração britânica busca reduzir o uso de hotéis para acomodação de pessoas que aguardam decisão sobre pedidos de asilo.
A controvérsia também envolve o processo de planejamento. O Conselho Distrital de Cherwell afirmou que só tomou conhecimento da proposta pouco antes do anúncio em junho e cobrou explicações do Ministério do Interior.
O referendo, portanto, não abre caminho jurídico para uma independência real de Piddington. Ele funciona como uma ação de protesto destinada a aumentar o custo político do projeto e a pressionar o governo a rever a escolha do local ou ampliar a participação da comunidade na decisão.


