Quase sete em cada dez médicos que trabalham em unidades de terapia intensiva no Brasil apresentaram sinais de burnout em um levantamento nacional com 2.338 profissionais. A prevalência foi de 68,9%, considerando a presença de ao menos um domínio alterado no Maslach Burnout Inventory, instrumento usado para avaliar esgotamento emocional, despersonalização e realização profissional.
O estudo foi conduzido com médicos que tinham pelo menos um ano de experiência em UTI e reuniu participantes de todas as 27 unidades da federação. A coleta ocorreu entre março e outubro de 2024, com amostragem probabilística estratificada por status de especialização.
Os resultados também mostram que 48,5% dos entrevistados tinham nível alto de esgotamento emocional, 16% apresentavam despersonalização elevada e 46,4% registravam baixo nível de realização profissional. Além disso, 54,2% foram classificados com baixa satisfação com a vida.
A sobrecarga de escala apareceu como um dos fatores mais fortemente associados ao burnout e à baixa satisfação com a vida. Os autores destacam que o problema envolve tanto condições de trabalho quanto possibilidades de recuperação física e emocional.
Burnout alcança maioria
Dos 2.338 médicos avaliados, 1.610 preencheram o critério adotado pelos pesquisadores para burnout, equivalente a 68,9% da amostra. O estudo definiu o quadro como a presença de pelo menos um domínio alterado no instrumento de avaliação.
Em 51,6% dos participantes, houve alteração em um ou dois domínios, classificação descrita como burnout parcial. Outros 9% apresentaram alterações simultâneas nos três domínios analisados, situação classificada como burnout grave.
Os pesquisadores ressaltam que a prevalência deve ser interpretada como carga de sintomas relacionados ao burnout, e não como diagnóstico clínico individual. O desenho do estudo foi transversal, o que permite identificar associações, mas não estabelecer relação de causa e efeito.
A pesquisa foi publicada na revista Critical Care Science e reuniu dados de 3.112 vínculos de trabalho em UTI, já que parte dos médicos mantinha mais de um contrato profissional ao mesmo tempo.
Esgotamento emocional chama atenção
O esgotamento emocional foi o componente mais expressivo entre os indicadores avaliados. Apenas 20,3% dos médicos apresentaram nível baixo, enquanto 31,2% ficaram na faixa moderada e 48,5% na faixa alta.
Isso significa que quase quatro em cada cinco profissionais tiveram ao menos nível moderado de desgaste emocional. A proporção reforça a pressão associada ao trabalho em ambientes de alta complexidade e tomada de decisão contínua.
A despersonalização também apareceu de forma relevante. Nesse domínio, 29,6% dos médicos registraram nível moderado e 16% nível alto, totalizando 45,6% com algum grau acima da faixa baixa.
Na prática, a despersonalização é caracterizada por distanciamento emocional e atitudes mais frias ou indiferentes no ambiente de trabalho, um comportamento que pode afetar relações com pacientes e equipes.
Satisfação também fica baixa
A Satisfaction With Life Scale apontou média de 23 pontos entre os participantes. Pelo critério adotado pelos pesquisadores, pontuações abaixo de 25 foram classificadas como baixa satisfação com a vida.
No total, 54,2% dos médicos ficaram abaixo desse limite. Entre as categorias detalhadas, 5% se declararam extremamente insatisfeitos, 9,7% insatisfeitos e 15,2% levemente insatisfeitos.
Outros 24,3% ficaram em posição neutra. Já 26,6% foram classificados como levemente satisfeitos, 16,4% satisfeitos e 2,8% extremamente satisfeitos.
Os dados indicam que o desgaste identificado no trabalho não aparece isoladamente. A pesquisa encontrou relação entre fatores profissionais, deslocamento, organização da jornada e percepção geral de bem-estar.
Sobrecarga aumenta o risco
Na análise ajustada, médicos que relataram sobrecarga de escala tiveram prevalência 25% maior de burnout em comparação com aqueles que trabalhavam em jornada reduzida. A mesma sobrecarga esteve associada a maior prevalência de baixa satisfação com a vida.
Os autores apontam que a organização do trabalho é uma dimensão central do problema. Carga excessiva, múltiplos vínculos e menor tempo para recuperação aparecem como elementos capazes de ampliar o desgaste.
O estudo também identificou associação entre deslocamentos mais longos e menor satisfação com a vida. Médicos que percorriam mais de 20 quilômetros por semana apresentaram indicadores piores nesse desfecho.
Por outro lado, profissionais com mais de 50 anos apresentaram menor prevalência de burnout do que médicos com menos de 35 anos, mesmo após os ajustes estatísticos.
Sono aparece como proteção
Comportamentos de recuperação foram associados a melhores resultados. Boa qualidade do sono em pelo menos três dias por semana esteve relacionada a uma prevalência menor de burnout e de baixa satisfação com a vida.
Atividade física e atividade social frequentes também permaneceram associadas a menor prevalência de burnout na análise ajustada. Já lazer regular e alimentação adequada se relacionaram a melhor satisfação com a vida.
Os autores alertam, no entanto, que esses fatores não devem deslocar a responsabilidade para o indivíduo. O trabalho conclui que intervenções organizacionais sobre jornada, estrutura e recuperação são fundamentais para a sustentabilidade da força de trabalho em UTI.
A leitura dos resultados reforça que medidas pessoais podem ter papel protetor, mas não substituem mudanças na forma como escalas, vínculos e condições de trabalho são organizados.
Especialização faz diferença
Na análise bruta, médicos sem título de especialista em terapia intensiva ou com formação em outras áreas tiveram frequência maior de burnout do que intensivistas certificados. Após os ajustes, a diferença permaneceu mais clara para baixa satisfação com a vida.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que treinamento especializado, apoio à decisão clínica e diferenças na distribuição de carga de trabalho podem ajudar a explicar parte desse resultado.
A pesquisa também mostrou que 58,1% dos participantes tinham dedicação parcial à terapia intensiva, enquanto 41,9% trabalhavam integralmente na área. A maioria, 73,2%, mantinha um único vínculo em UTI, mas 21% tinham dois contratos.
O conjunto de dados é apresentado pelos autores como uma das avaliações mais representativas já feitas sobre o bem-estar de médicos intensivistas no país e reforça o debate sobre saúde mental como tema de gestão do sistema de saúde.
Veja os principais números
| Veja os números da pesquisa | |
|---|---|
| Indicador | Percentual |
| Burnout em ao menos um domínio | 68,9% |
| Alto esgotamento emocional | 48,5% |
| Alta despersonalização | 16,0% |
| Baixa realização profissional | 46,4% |
| Baixa satisfação com a vida | 54,2% |
| Burnout grave, com três domínios alterados | 9,0% |
Fonte: Critical Care Science.


