O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, de “cínica” e “mentirosa” durante um comício realizado na noite de quarta-feira (16), em Ceilândia. O petista afirmou que o governo federal não colocará dinheiro no Banco de Brasília, o BRB, que enfrenta dificuldades financeiras após operações realizadas com o Banco Master. Lula também responsabilizou politicamente o ex-governador Ibaneis Rocha e o ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro, pela situação da instituição.
A declaração ocorre enquanto o Governo do Distrito Federal tenta viabilizar uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, para fortalecer o BRB. A questão está judicializada no Supremo Tribunal Federal e envolve a discussão sobre garantias e contragarantias necessárias para que a operação avance. A concessão de garantia pela União segue regras fiscais analisadas pelo Tesouro Nacional.
O embate transformou a crise financeira do banco controlado pelo Distrito Federal em mais um ponto de confronto político entre Lula e Celina durante a campanha eleitoral de 2026. A governadora reagiu após o comício e acusou o presidente de tratar a questão de forma partidária.
Lula eleva críticas a Celina
Ao falar sobre o BRB diante de apoiadores em Ceilândia, Lula acusou Celina de tentar transferir para o governo federal a responsabilidade pela situação do banco. O presidente relacionou os problemas financeiros da instituição às operações realizadas com o Banco Master durante a gestão de Ibaneis Rocha no Distrito Federal.
Lula afirmou que o BRB adquiriu cerca de R$ 12 bilhões em títulos que, segundo ele, não existiam. A declaração foi feita como acusação política durante o comício. Investigações e análises sobre negócios entre BRB e Master identificaram indícios de irregularidades em diferentes carteiras de crédito e ativos, mas os valores e a extensão das perdas vêm sendo apurados por autoridades e podem variar conforme o critério utilizado.
Nós não vamos deixar o povo sem dinheiro, mas não vamos dar dinheiro para o BRB.
Luiz Inácio Lula da Silva
O presidente também voltou suas críticas a Ibaneis, que deixou o governo distrital para disputar uma vaga no Senado. A responsabilização feita por Lula representa a posição do presidente sobre o episódio. As responsabilidades individuais relacionadas às operações investigadas dependem dos processos administrativos, policiais e judiciais em andamento.
Celina rebate presidente
Celina Leão respondeu às declarações pelas redes sociais. A governadora disse lamentar a postura de Lula e afirmou que esperava uma atuação institucional do presidente na discussão sobre o futuro do banco, e não uma abordagem vinculada à disputa eleitoral.
Segundo Celina, o pedido feito pelo Distrito Federal não corresponde a uma transferência direta de dinheiro da União para o BRB. A discussão envolve principalmente as condições para uma operação de crédito destinada ao fortalecimento financeiro da instituição e as garantias necessárias para que o financiamento seja concretizado.
A governadora também sustentou que o BRB pertence à população do Distrito Federal e não deveria ser utilizado em uma disputa partidária. A resposta ocorreu poucas horas após Lula participar do comício em Ceilândia, onde apoiou candidatos aliados nas eleições do DF.
DF busca R$ 6,6 bilhões
O plano aprovado no Distrito Federal autoriza uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões com o FGC ou outras instituições financeiras. A legislação local prevê que os recursos sejam usados para recompor ou reforçar o patrimônio e o capital do BRB.
Em junho, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou proposta que ratificou os termos de um acordo homologado no Supremo. O texto prevê uma operação de crédito com o FGC destinada ao Distrito Federal, com os recursos direcionados exclusivamente para aporte de capital no banco.
A Lei distrital nº 7.914, sancionada em junho, também permite a utilização de recursos do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal e de outras receitas como contragarantias. A estrutura definitiva da operação, entretanto, depende do cumprimento das exigências financeiras e jurídicas previstas para esse tipo de financiamento.
STF analisa impasse financeiro
O caso permanece sob análise do Supremo Tribunal Federal. O ministro Luiz Fux deu prazo para que governo federal, Banco Central e FGC apresentem manifestações sobre o pedido relacionado à operação financeira destinada ao BRB.
A discussão é relevante porque a garantia da União não equivale necessariamente a um desembolso imediato de dinheiro público. Em operações garantidas, o Tesouro assume determinadas obrigações caso o tomador não consiga cumprir o contrato, conforme as regras fiscais aplicáveis.
O Tesouro Nacional considera critérios como capacidade de pagamento, suficiência de contragarantias e enquadramento fiscal antes da concessão de aval da União a operações de estados, municípios e Distrito Federal. O governo local busca uma estrutura que permita avançar com o financiamento mesmo diante das restrições existentes.
Operações com Master são investigadas
A crise do BRB está diretamente ligada à exposição do banco a ativos originados ou negociados com o Banco Master. Investigações da Polícia Federal e análises do Banco Central identificaram problemas em parte dessas operações, incluindo carteiras de crédito cuja origem e qualidade passaram a ser questionadas.
Em um dos conjuntos analisados pela investigação, a Polícia Federal apontou fortes indícios de irregularidade em cédulas de crédito que passaram pela empresa Tirreno, pelo Master e posteriormente foram adquiridas pelo BRB. Outros ativos e negócios realizados entre as instituições também são alvo de apuração.
Estimativas divulgadas a partir de documentos do Banco Central apontaram perdas potenciais bilionárias para o BRB. Os números ainda são objeto de avaliação e não devem ser tratados como valor definitivo do impacto financeiro até a conclusão das análises e a divulgação de demonstrações atualizadas do banco.
Crise entra na campanha
As declarações de Lula foram feitas durante um ato eleitoral em Ceilândia, o que inseriu diretamente a situação do BRB no debate da campanha de 2026. Celina disputa a continuidade no comando do Distrito Federal, enquanto Ibaneis concorre ao Senado.
O episódio também coloca em lados opostos os governos federal e distrital sobre a responsabilidade política pela crise e sobre a forma de estruturar uma solução financeira. Lula sustenta que a União não deve arcar com o problema. Celina argumenta que a participação federal buscada pelo DF está relacionada à garantia necessária para viabilizar uma operação de crédito, e não a uma transferência simples de recursos.
Enquanto a troca de acusações avança no ambiente eleitoral, a solução para o BRB permanece vinculada às negociações financeiras, às exigências dos órgãos de controle e às decisões do Supremo. O desfecho da operação de até R$ 6,6 bilhões ainda depende dessas etapas e das condições que forem estabelecidas para o financiamento.


