A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs que o Canadá se torne o primeiro membro associado da União Europeia. O anúncio foi feito durante o discurso anual sobre o Estado da União, realizado no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, acompanhou a declaração no plenário e recebeu uma ovação de pé dos parlamentares europeus. A iniciativa ocorre em um momento em que ambos os lados buscam diversificar alianças econômicas e reforçar parcerias estratégicas globais.
A proposta visa elevar a relação bilateral ao nível mais integrado da história do bloco com um país de fora do continente europeu. No entanto, os detalhes formais sobre o funcionamento desse novo modelo de associação ainda serão delineados e dependem da aprovação dos estados-membros.
Proposta busca fortalecer cooperação em meio a disputas comerciais
Durante sua fala, Von der Leyen destacou que a parceria abrangente deve cobrir setores cruciais, como manufatura inteligente, tecnologia, defesa, segurança cibernética e inteligência artificial. O plano inclui também ações conjuntas em energia, baterias e exploração de minerais críticos.
O estreitamento das relações se dá em meio a atritos comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos. O presidente norte-americano, Donald Trump, adotou políticas tarifárias contra aliados e fez declarações recorrentes sugerindo que o Canadá se tornasse o 51º estado norte-americano, ideia rejeitada categoricamente pelo governo canadense.
Apesar do cenário de atrito tarifário global, a líder da Comissão Europeia ressaltou que a aproximação com Ottawa não é direcionada contra nenhum outro país, mas sim voltada para a resiliência democrática e econômica das nações envolvidas.
Iniciativa engloba acordos em infraestrutura e mobilidade
Embora o modelo de membro associado ainda não tenha sido totalmente definido, tratativas internas entre autoridades europeias e canadenses abordam frentes como a redução de barreiras comerciais e a instalação de cabos submarinos diretos entre a Europa e o Canadá.
Nós JAMAIS seremos o 51º estado dos EUA. E JAMAIS seremos o 28º estado da UE.”
Pierre Poilievre
As conversas incluem também investimentos conjuntos em infraestrutura tecnológica e a possibilidade de redirecionar fluxos de gás para suprir demandas europeias. Outro ponto em discussão é a simplificação de regras para permitir que cidadãos canadenses vivam e trabalhem em países europeus sem a necessidade de visto.
Como sinal do compromisso de longo prazo, o Parlamento Europeu anunciou a abertura de um escritório-antena em Ottawa. A nova estrutura foi planejada para intensificar a cooperação institucional e o diálogo político contínuo entre as autoridades europeias e o governo canadense.
Pesquisas mostram apoio público e divergências políticas no Canadá
A aproximação com a Europa encontra respaldos significativos na opinião pública canadense. Um levantamento recente conduzido pela empresa Abacus Data revelou que 80% dos entrevistados apoiam o aprofundamento da cooperação em defesa, política externa e economia com o bloco europeu.
Além disso, 56% dos canadenses disseram identificar maior afinidade do país com as nações europeias do que com os Estados Unidos. Quase metade da população consultada afirmou ser favorável a uma integração ainda maior com a União Europeia.
Por outro lado, o movimento enfrenta resistência da oposição política no Canadá. Líderes do Partido Conservador expressaram ceticismo em relação à proposta, argumentando que o foco deve permanecer no comércio interno e criticando o que consideram um risco potencial à soberania canadense.
Desafios geográficos e regras de adesão ao bloco europeu
Historicamente, o Canadá mantém laços culturais e institucionais profundos com a Europa, compartilhando modelos de democracia parlamentar e bem-estar social. O país possui inclusive uma fronteira terrestre simbólica com o continente europeu na Ilha Hans, gerida conjuntamente com a Dinamarca.
Contudo, a localização geográfica fora da Europa impede o ingresso formal do Canadá como membro pleno, processo regulado por rígidas etapas de adesão e aprovação unânime dos 27 países integrantes do bloco.
Diante dessas barreiras estruturais, acordos vigentes da UE com países não membros, como Noruega e Suíça, servem de inspiração técnica para formatar um status inédito que atenda às características do Canadá sem exigir a adesão plena.


