O Supremo Tribunal Federal vive uma de suas crises institucionais mais graves, marcada por um confronto direto entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça durante uma sessão extraordinária realizada em 15 de setembro de 2026. O embate ocorreu em meio à análise de um relatório da Polícia Federal que aponta mensagens, encontros presenciais e um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master, do ex-dono Daniel Vorcaro, e o escritório da esposa de Moraes.
A sessão foi suspensa após o ministro Flávio Dino apresentar um pedido de vista, estipulando um prazo de até 90 dias corridos para a retomada da análise. Enquanto isso, o plenário registrou um placar parcial de 4 a 3 favorável à separação dos julgamentos das condutas de Moraes e Mendonça, embora o decano Gilmar Mendes tenha tentado emplacar uma sessão conjunta para debater as acusações mútuas.
As discussões evidenciam um cenário inédito e de alta tensão na Corte, coincidindo temporalmente com o aniversário de um ano da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. O relator dos processos da trama golpista, Alexandre de Moraes, chegou a tentar conectar os dois momentos históricos durante os debates acalorados no plenário.
Confronto expõe racha institucional
Durante a sessão extraordinária, a troca de acusações entre Alexandre de Moraes e André Mendonça elevou o tom do plenário, com manifestações públicas de repúdio à condução dos processos. Moraes acusou o colega de atuar a serviço de um grupo político golpista e, em documento enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin, alegou que Mendonça age motivado por interesses político-eleitorais e por espírito de vingança.
Por sua vez, André Mendonça atua como relator do caso Master no Supremo e defende a apuração das informações reveladas pelas investigações da Polícia Federal. O magistrado retirou o sigilo do documento que cita o contrato milionário e as tratativas entre o empresário Daniel Vorcaro e o entorno do ministro Alexandre de Moraes, gerando forte reação e acusações de liberação seletiva de dados.
A gravidade da situação mobilizou a atenção internacional e interna, colocando em evidência os limites da atuação dos magistrados e os reflexos políticos das decisões tomadas no âmbito do Supremo. A sessão foi suspensa sem uma definição sobre a abertura formal de investigações contra o ministro Alexandre de Moraes.
Colegiado define julgamentos separados
O presidente do STF, Edson Fachin, optou inicialmente por fatiar os processos, determinando que as acusações cruzadas sejam tratadas de forma desmembrada. A análise das manifestações apresentadas por Moraes contra Mendonça foi pautada para a sessão da próxima terça-feira (23), embora permaneçam dúvidas sobre a efetividade da realização do encontro diante dos impasses regimentais.
Durante a votação sobre o modelo de tramitação, o plenário contabilizou quatro votos pela divisão e três contrários, demonstrando divisão entre os ministros da ativa. Os ministros Nunes Marques, que se declarou impedido, e Dias Toffoli, que invocou suspeição por foro íntimo, ficaram de fora da deliberação que definiu o placar apertado no colegiado.
A tentativa do decano Gilmar Mendes de unificar os debates por meio de questão de ordem buscou evitar a pulverização das discussões éticas e disciplinares envolvendo membros da mais alta corte do país. No entanto, sem um consenso definitivo, prevalece a condução estabelecida pela presidência até que novos prazos regimentais expirem.
Investigações detalham caso Master
O epicentro da crise jurídica reside nas apurações conduzidas pela Polícia Federal a partir de dados recuperados do aparelho celular de Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master. Os relatórios periciais apontam registros de conversas, agendamento de reuniões presenciais e a existência de um vínculo contratual expressivo no valor de R$ 130 milhões.
O contrato em questão foi firmado entre a instituição financeira e o escritório de advocacia mantido pela esposa de Alexandre de Moraes, elemento que motivou o pedido de aprofundamento das apurações. A defesa da legalidade do acordo contrapõe-se às acusações de conflito de interesses levantadas por críticos e oponentes políticos dos envolvidos.
A divulgação desses elementos provocou ondas concêntricas de desgaste para a imagem do tribunal, que historicamente tem buscado blindar seus integrantes de questionamentos externos sobre condutas profissionais e negociais fora do estrito cumprimento da magistratura.
Corte recorda condenação histórica
A turbulência atual ocorre exatamente um ano e quatro dias após a decisão da Primeira Turma do STF que condenou Jair Bolsonaro e outros sete integrantes do Núcleo 1 da trama golpista. A sentença histórica estabeleceu pena de reclusão em regime fechado, convertida posteriormente para prisão domiciliar humanitária ao ex-presidente.
A denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República detalhou o planejamento de ações coordenadas entre 2021 e 2023 voltadas para impedir a posse e o exercício do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A atuação firme de ministros como Alexandre de Moraes na condução daqueles inquéritos consolidou o protagonismo da Corte na defesa institucional.
Entretanto, a mesma arquitetura investigativa que resultou na punição de lideranças civis e militares do governo anterior volta-se agora, por meio de relatórios da mesma Polícia Federal, contra a cúpula do próprio tribunal, gerando ironias políticas e duras cobranças por parte de aliados do antigo governo.


