O farmacêutico aposentado John Reagan, de 66 anos, está em reabilitação em Boston após desenvolver uma infecção grave pelo vírus Powassan semanas depois de retirar um carrapato da pele. Morador de Concord, em New Hampshire, ele recebeu o diagnóstico em 9 de junho, depois de perder a capacidade de falar, se mover e abrir os olhos.
O caso chama atenção para uma diferença relevante entre o Powassan e a doença de Lyme: segundo o relato, o vírus pode ser transmitido em cerca de 15 minutos após a fixação do carrapato. Já a família de Reagan afirma que ele havia retirado o animal quase imediatamente ao voltar para casa.
Quadro evoluiu após sintomas gripais
Reagan retirou o carrapato no início de maio, período em que aproveitava os primeiros meses de aposentadoria. Ele costumava passar tempo ao ar livre, com atividades como caça, pesca e caminhadas.
Algumas semanas depois, começaram dor de cabeça, dores no corpo, febre, náuseas e diarreia. Em meados de maio, ele procurou um pronto-socorro local, onde recebeu fluidos e medicamentos para enjoo, mas os profissionais não identificaram a causa do quadro.
O estado de saúde continuou a piorar após essa primeira ida ao hospital. A esposa chegou a suspeitar de um derrame quando Reagan voltou à unidade de saúde.
Na nova internação, ele perdeu a fala, os movimentos e a capacidade de abrir os olhos. A família levantou a possibilidade de ligação com a picada de carrapato ocorrida semanas antes.
Diagnóstico identificou vírus Powassan
Reagan foi transferido para o Hospital Geral de Massachusetts, em Boston. A equipe realizou uma série de exames, inclusive testes voltados a doenças transmitidas por carrapatos.
Uma amostra de sangue seguiu para um laboratório especializado da Clínica Mayo. Em 9 de junho, a família recebeu o diagnóstico de infecção pelo vírus Powassan.
O Powassan é descrito como uma infecção rara e grave. Até o diagnóstico de Reagan, seus familiares disseram não conhecer a doença.
Proteja a si mesmo ou aos seus entes queridos caso tenham sido picados por um carrapato recentemente”
Jeff Reagan, filho de John Reagan
O vírus pertence à mesma família do vírus do Nilo Ocidental e do Zika. O material relata que carrapatos capazes de transmitir o Powassan também estão associados à transmissão da doença de Lyme.
Vírus pode atingir o cérebro
Logo no início da internação, o inchaço cerebral fez Reagan parar de respirar. Os médicos instalaram tubos para respiração e alimentação e o mantiveram em ventilação mecânica na unidade de terapia intensiva.
Depois de quase um mês, ele acordou e começou a recuperar a comunicação. No entanto, o longo período acamado trouxe outras complicações, entre elas coágulos sanguíneos e pneumonia.
O microbiologista, imunologista e patologista Greg Ebel, da Universidade Estadual do Colorado, afirmou que parte das infecções pode não evoluir para doença grave. Em outros casos, porém, o vírus se replica em neurônios e em outras células do cérebro.
A doença causada pelo vírus Powassan é fatal em aproximadamente um de cada dez casos, e cerca de metade dos sobreviventes apresenta complicações de longo prazo.
Reabilitação busca recuperar funções
Desde o início de julho, Reagan faz reabilitação no Spaulding Rehabilitation Hospital, em Boston. O objetivo é recuperar a capacidade de andar, falar e organizar o pensamento.
Segundo Jeff Reagan, filho de John, o pai trabalha a coordenação, o equilíbrio e a percepção de profundidade. A família observou avanços na cognição durante esse processo.
Reagan já não usa o tubo de respiração, mas ainda recebe a maior parte da nutrição por uma sonda inserida no abdômen. A expectativa de retorno para casa até o fim de agosto foi adiada após dores no ombro e nas costas.
Mesmo assim, a família prepara a residência para a volta dele. Uma rampa e barras de apoio foram instaladas, enquanto a sonda de alimentação poderá permanecer necessária por algum tempo após a alta.
Ele quer andar e está tentando recuperar a coordenação, o equilíbrio e a percepção de profundidade”
Jeff Reagan, sobre a reabilitação do pai
Casos avançam nos Estados Unidos
As doenças transmitidas por carrapatos têm se tornado mais frequentes nos Estados Unidos, conforme o material. Cerca de 90% das doenças provocadas por picadas de vetores, incluindo mosquitos, são transmitidas por carrapatos no país.
A doença de Lyme é a mais comum entre essas infecções. Estimativas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, apontam quase meio milhão de casos anuais.
Já a doença causada pelo Powassan permanece rara, com menos de 100 diagnósticos notificados por ano nos EUA, segundo o CDC. Ainda assim, o texto aponta crescimento dos registros à medida que aumentam as populações de carrapatos transmissores.
Em 2025, foram relatados 76 casos humanos da doença por Powassan no país, dos quais dez foram fatais. O vírus foi identificado por cientistas canadenses na década de 1950, após a morte de uma criança que desenvolveu inchaço cerebral em Ontário.
Prevenção ganha papel central
Não há tratamento específico para a doença causada pelo vírus Powassan. Por isso, a prevenção de picadas e a atenção a sintomas após exposição a carrapatos se tornam as principais formas de proteção citadas no relato.
Jeff Reagan defendeu maior conhecimento sobre a infecção entre a população e os serviços de saúde. A família decidiu compartilhar a experiência depois dos meses de incerteza sobre a recuperação de John.
“”, afirmou Jeff Reagan, ao alertar que nem todos os profissionais de saúde conhecem a doença de Powassan.
O Congresso dos Estados Unidos aprovou, nas duas casas, a Lei de Reautorização do Controle de Carrapatos Kay Hagan, segundo o material. O texto ainda aguardava votação de sua versão final e prevê US$ 150 milhões em cinco anos para pesquisadores e departamentos locais de saúde voltados ao combate de doenças transmitidas por vetores.


