A recuperação da Amazônia após fogo ocorreu plenamente em apenas 27,6% das áreas analisadas entre 2001 e 2023. O resultado aparece em um estudo que acompanhou por satélite mais de 110 mil manchas de floresta atingidas por incêndios em toda a região amazônica.
Os pesquisadores consideraram recuperada a área cujo índice de vegetação voltou ao nível registrado antes do fogo. Entre as manchas que alcançaram esse patamar, o tempo médio foi de 3,81 anos. A maioria, porém, não retornou ao nível anterior dentro da janela do estudo.
A análise mostra que interromper novos incêndios é indispensável, mas pode não bastar nas paisagens mais degradadas. Intensidade do fogo, calor, disponibilidade de água, formato da área queimada e pressão humana atuam juntos e reduzem a capacidade de regeneração.
Satélites acompanham mais de 110 mil áreas
O trabalho foi publicado em julho na revista científica Big Earth Data. Taichang Liu, Fang Chen, Bo Yu e Lei Wang construíram um inventário de perdas florestais baseado em imagens Landsat e analisaram manchas queimadas como eventos completos, em vez de observar pixels isolados.
Esse método permitiu comparar o comportamento de áreas com tamanhos, formas e níveis de dano diferentes. Além disso, a equipe cruzou a trajetória da vegetação com dados climáticos, hidrológicos e de ocupação humana para identificar o peso relativo de cada fator.
O recorte abrangeu regiões que eram classificadas como floresta em 2000 dentro do bioma amazônico delimitado pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada. Portanto, o estudo não incluiu queimadas em formações vizinhas do Cerrado e do Pantanal.
Para medir a volta da cobertura vegetal, os autores usaram o NDVI relativo, um indicador produzido a partir da luz refletida pelas plantas. O retorno desse índice ao patamar anterior ao incêndio sinaliza recuperação do verdor, mas não significa, por si só, que biomassa, biodiversidade e composição de espécies também tenham sido restauradas.
Severidade prolonga a regeneração florestal
A intensidade da queimada apresentou a relação mais clara com a recuperação. Áreas submetidas a fogo leve retornaram mais frequentemente ao nível anterior e precisaram de menos tempo, enquanto as de alta severidade tiveram a menor proporção de recuperação.
O quadro compara os três níveis de dano usados pelos pesquisadores e evidencia como o tempo aumenta à medida que a severidade avança.
| Recuperação por severidade do fogo | ||
|---|---|---|
| Severidade | Tempo médio | Proporção recuperada |
| Baixa | 3,53 anos | 34,0% |
| Moderada | 5,15 anos | Não detalhada |
| Alta | 5,79 anos | 11,9% |
Fonte: estudo publicado na revista Big Earth Data
A diferença não depende apenas das árvores que morrem durante as chamas. Incêndios mais fortes alteram o dossel, aumentam a exposição do solo e favorecem novas condições de calor e ressecamento. Dessa forma, a vegetação enfrenta um ambiente menos favorável justamente quando tenta se restabelecer.
Os autores também detectaram efeito do formato das manchas. Áreas mais compactas tenderam a se recuperar mais lentamente, enquanto formas alongadas ou irregulares tiveram resultado ligeiramente melhor. Uma possível explicação está na proximidade com bordas preservadas, que podem fornecer sementes e facilitar a recolonização.
Pressão humana agrava perdas no sudeste
As recuperações mais rápidas apareceram com maior frequência no oeste e no noroeste da Amazônia, onde a estrutura florestal permanece relativamente mais íntegra. Em contraste, casos superiores a duas décadas se concentraram sobretudo no sudeste do bioma e no Arco do Desmatamento.
Nessa faixa, estradas, pastagens, fragmentação e recorrência do fogo criam barreiras adicionais. O estudo identificou um efeito de limiar: quando a transformação humana da paisagem se torna intensa, a probabilidade de recuperação cai e o processo demora mais.
Calor e água também interagem de forma não linear. Temperaturas altas, pouca umidade no solo e alterações no escoamento prolongaram a regeneração. Por isso, uma área pode continuar vulnerável mesmo depois que as imagens mostram o reaparecimento de cobertura verde.
Os pesquisadores observaram ainda uma desaceleração modesta. Entre as áreas que se recuperaram em até cinco anos, aquelas queimadas de 2009 a 2016 levaram, em média, 1,91% mais tempo do que as atingidas entre 2001 e 2008. O resultado sugere pressão crescente de secas e distúrbios acumulados.
Prevenção reduz danos de longo prazo
Outros trabalhos reforçam que recuperar o aspecto verde não equivale a reconstituir a floresta original. Um experimento de 20 anos no sudeste de Mato Grosso mostrou melhora estrutural no interior das áreas após a interrupção do fogo, mas registrou perda de espécies especializadas e recuperação muito mais lenta nas bordas.
Em 2024, 14 anos depois do último incêndio experimental, a riqueza de espécies nas bordas mais queimadas ainda estava mais de 50% abaixo do nível anterior. Espécies generalistas e de crescimento rápido ocuparam espaço antes preenchido por árvores longevas, importantes para o estoque de carbono e para a fauna.
No Acre, uma análise com cerca de 150 mil medições de radar a laser feitas entre 2019 e 2025 encontrou outra consequência duradoura. Mesmo quatro décadas após o fogo, as florestas queimadas apresentavam, em média, cerca de 90% da biomassa das áreas comparáveis que não queimaram.
Os resultados apontam prioridades complementares: impedir a repetição dos incêndios, conter a fragmentação, controlar gramíneas invasoras e reconectar trechos de floresta. Em paisagens muito alteradas, os autores defendem intervenções de restauração e regeneração assistida para superar barreiras que a recuperação natural não consegue remover sozinha.


