Republicanos dos Estados Unidos passaram a colocar políticos muçulmanos e o Islã no centro da campanha para as eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. As declarações partiram de lideranças como o vice-presidente JD Vance, o governador texano Greg Abbott e o senador Tommy Tuberville.
A disputa definirá se os democratas conseguem retirar do Partido Republicano e do presidente Donald Trump o controle do Congresso. Enquanto republicanos afirmam levantar questões de segurança, extremismo e religião na vida pública, críticos veem ataques injustos contra muçulmanos americanos.
Vance ataca candidato em Michigan
JD Vance chamou Abdul El-Sayed, democrata que disputa uma vaga no Senado por Michigan, de “muito, muito maléfico” durante um comício em setembro. El-Sayed nasceu nos Estados Unidos e pode se tornar o primeiro muçulmano eleito para o Senado americano.
O vice-presidente associou suas críticas a comentários feitos pelo candidato depois de um ataque, em março, contra uma sinagoga nos subúrbios de Detroit. Um homem lançou um veículo contra o prédio quando havia crianças no local.
El-Sayed condenou o ataque, mas também afirmou que pessoas feridas ferem outras pessoas. Ele fazia referência ao agressor e disse que parentes do homem no Líbano haviam morrido recentemente em um ataque aéreo israelense. Posteriormente, o democrata declarou que suas palavras poderiam ter sido interpretadas de forma equivocada e pediu desculpas.
Abbott pede investigação no Texas
No Texas, Greg Abbott criticou um empreendimento imobiliário liderado por muçulmanos e pediu uma investigação. O governador, que busca outro mandato em uma disputa descrita como acirrada, alegou haver tentativas de criar “tribunais da sharia”.
Os incorporadores e organizações de defesa de direitos civis contestaram a acusação. Por outro lado, Eduardo Leal, porta-voz da campanha de Abbott, afirmou que as medidas do governador buscavam apurar condutas supostamente ilegais, e não crenças religiosas.
A sharia reúne princípios e interpretações da tradição islâmica. Na campanha texana, porém, o termo aparece como ponto de conflito político, em meio às acusações e às respostas de grupos ligados ao projeto imobiliário.
Congressistas ampliam ofensiva sobre sharia
A retórica também alcançou as disputas pela Câmara dos Representantes. Os deputados republicanos Keith Self e Chip Roy, ambos do Texas, organizaram um grupo chamado “Grupo pela América Livre da Sharia”.
O mal é tirar o acesso à saúde das pessoas trabalhadoras em troca de isenções fiscais para bilionários.”
Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado por Michigan
Na Flórida, o deputado republicano Randy Fine apresentou um projeto de lei que, segundo ele, pretende combater o que definiu como aumento da aplicação da sharia nos Estados Unidos. Assessores de Fine não responderam aos pedidos de comentário sobre a proposta.
No Alabama, Tommy Tuberville, senador republicano que concorre ao governo estadual, afirmou que “o inimigo está dentro dos portões” ao se referir ao que chamou de islamismo radical. Os muçulmanos representam menos de 0,5% da população do estado, segundo as informações disponíveis.
Comunidade amplia presença política
Os muçulmanos somam cerca de 5,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos, de acordo com o Pew Research Center. O número supera os 2,4 milhões registrados em 2007 e equivale a aproximadamente 1,6% da população do país.
Ao mesmo tempo, a comunidade alcançou marcos eleitorais nos últimos anos. Muçulmanos foram eleitos para a Câmara dos Representantes, e Zohran Mamdani se tornou o primeiro prefeito muçulmano de Nova York no ano passado.
Na Virgínia, Ghazala Hashmi venceu a eleição para vice-governadora e se tornou a primeira mulher muçulmana escolhida para um cargo estadual. A candidatura de El-Sayed ao Senado, portanto, ocorre em um período de maior presença de políticos muçulmanos em postos eletivos.
Campanha ocorre sob pressão sobre Trump
O debate se intensifica enquanto o índice de aprovação de Trump permanece em cerca de 33%, conforme as informações apresentadas. Entre as preocupações apontadas estão o custo de vida, a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e as tarifas impostas pelo presidente a produtos estrangeiros.
A percepção do público americano sobre Israel também mudou, especialmente entre democratas. Pesquisas citadas no material apontam maior simpatia pelos palestinos e oposição crescente à ajuda militar dos Estados Unidos.
Aaron Hughes, professor de estudos religiosos da Universidade de Rochester e especialista em islamismo e judaísmo, relacionou o foco eleitoral nos muçulmanos à dificuldade dos republicanos de ganhar impulso político em temas como custo de vida, guerra contra o Irã e imigração.
Críticos contestam associação ao extremismo
Hughes classificou a estratégia como alarmismo e criticou a aproximação entre uma comunidade religiosa ampla e grupos ou governos como Hamas e Irã. Ele também observou que muitos muçulmanos têm posições conservadoras, entre elas oposição a alguns procedimentos de aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
O especialista situou as declarações em um histórico de ataques a minorias durante campanhas nos Estados Unidos. Em 2024, por exemplo, Trump e outros republicanos divulgaram a alegação falsa de que imigrantes haitianos em Springfield, Ohio, comiam animais de estimação.
Para Ashik Siddique, copresidente dos Socialistas Democráticos da América, a islamofobia não deve ser atribuída apenas a um partido. Ele citou declarações de Andrew Cuomo na campanha pela prefeitura de Nova York, em outubro do ano passado, quando o então candidato independente questionou como Mamdani agiria durante os ataques de 11 de setembro de 2001.


