México e Estados Unidos buscam concluir um acordo comercial bilateral provisório antes das eleições de meio de mandato americanas, marcadas para 3 de novembro, segundo seis fontes dos dois países familiarizadas com as conversas. A negociação envolve possível alívio de tarifas impostas por Washington e exigências ligadas à indústria automotiva e ao investimento chinês.
A articulação ganhou urgência após o rompimento das negociações comerciais entre Estados Unidos e Canadá. Para o México, que destina mais de 80% de suas exportações ao mercado americano, um entendimento pode ter impacto sobre a confiança de investidores e as condições de acesso ao seu principal parceiro comercial.
Negociações buscam acordo comercial provisório
As tratativas em curso não substituem o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, conhecido pela sigla USMCA. A proposta em discussão é um entendimento bilateral temporário entre Cidade do México e Washington, enquanto as questões ligadas ao pacto trilateral continuam sob negociação.
Segundo as fontes ouvidas, os dois governos veem vantagem política em anunciar um resultado antes da votação americana. O Partido Republicano, do presidente Donald Trump, disputa a manutenção do controle do Congresso nas eleições de meio de mandato.
O Ministério da Economia do México afirmou, por meio de porta-voz, que não há prazo específico para fechar um acordo. Ainda assim, o órgão reiterou o compromisso do governo mexicano de manter o diálogo com Washington.
Tarifas pressionam indústria automotiva
As tarifas aplicadas pelos Estados Unidos com base na Seção 232 aparecem como um dos principais entraves. Sob esse instrumento de segurança nacional, o aço mexicano e canadense exportado aos EUA enfrenta tarifa de 50%, enquanto veículos estão sujeitos a uma alíquota de 25%.
O cenário cria uma diferença em relação a outros parceiros comerciais dos Estados Unidos. O governo Trump negociou tarifas de importação de automóveis de 15% para Japão, União Europeia e Coreia do Sul, além de 10% para a Grã-Bretanha.
Fontes do setor automotivo avaliam que Washington poderia oferecer ao México uma estrutura parecida com a discutida anteriormente com o Canadá. A hipótese mencionada prevê tarifa de 15% sobre veículos importados, com redução adicional vinculada ao conteúdo americano, o que levaria a taxa efetiva para cerca de 7%.
Em troca, os EUA esperam maior presença de conteúdo americano nos veículos produzidos no México, sobretudo em motores, eletrônicos e softwares, segundo uma segunda fonte baseada no país. A forma definitiva de eventual concessão mexicana, porém, segue em aberto nas conversas.
México responde a pressão sobre investimentos
O governo de Claudia Sheinbaum apresentou uma proposta legislativa que daria ao Executivo mexicano novos poderes para examinar e bloquear aquisições estrangeiras de empresas do país. A medida foi encaminhada antes da conversa virtual entre a presidente e o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick.
Eles poderiam argumentar que a culpa por não terem chegado a um acordo foi do Canadá.”
Diego Marroquin Bitar, especialista em comércio americano e consultor
A reunião ocorreu na quinta-feira, dia 10, e tratou de comércio. Inicialmente prevista para ser presencial, ela foi realizada por videoconferência, em um sinal do ritmo acelerado das tratativas entre os dois governos.
A proposta mexicana criaria um regime de triagem de investimentos semelhante aos existentes nos Estados Unidos e no Canadá. A iniciativa é vista como resposta à pressão americana por maior escrutínio sobre investimentos chineses no México.
Impasse com Canadá altera estratégia
O avanço das conversas com o México ocorre depois do colapso das negociações entre Washington e Ottawa no mês anterior. A ruptura colocou os dois aliados em uma disputa tarifária e mudou o ambiente para o acordo regional.
Na terça-feira, dia 8, os Estados Unidos proibiram a importação de diversas bebidas alcoólicas, motocicletas e laticínios do Canadá. Em resposta, Ottawa prometeu equiparar as tarifas americanas dólar por dólar.
O impasse reforçou a estratégia mexicana de evitar uma confrontação direta com Washington, segundo fontes. Autoridades mexicanas e canadenses mantêm publicamente o compromisso de preservar um acordo trilateral, mas há integrantes do governo mexicano que defendem não subordinar os interesses do país a uma solução para o Canadá.
Uma fonte da indústria automobilística disse que o governo Trump busca isolar Ottawa ao alcançar um entendimento com o México antes da entrada em vigor das novas tarifas canadenses, prevista para 1º de janeiro. Essa possibilidade amplia o peso estratégico de uma negociação bilateral.
USMCA permanece em revisão anual
O USMCA continuou em vigor, mas seu futuro ficou mais incerto em julho, quando os Estados Unidos não aceitaram renová-lo por mais 16 anos. O tratado passou a ficar sujeito a revisões anuais.
O governo Trump tem usado esse processo para buscar concessões adicionais de México e Canadá. Por isso, um entendimento provisório bilateral poderia organizar parte das disputas tarifárias sem encerrar a revisão mais ampla do pacto regional.
Antes do fracasso das conversas com o Canadá, Ottawa parecia próxima de um acordo com Washington sobre as tarifas da Seção 232 e outros pontos comerciais. A expectativa era que termos semelhantes pudessem abrir caminho para uma solução mais rápida também com o México.
Acordo pode afetar preços e mercados
Para o governo mexicano, um acordo com os Estados Unidos é considerado importante para acalmar mercados e investidores, segundo fonte ouvida nas negociações. A avaliação ocorre após preocupações com a fragilidade da economia e com a queda na classificação de crédito da dívida mexicana.
Sheinbaum apresentou nesta semana o orçamento mexicano para 2027. Nesse ambiente, uma redução das barreiras comerciais com os EUA seria politicamente relevante para a administração mexicana e para setores exportadores integrados à cadeia produtiva norte-americana.
Nos Estados Unidos, Diego Marroquin Bitar, especialista em comércio americano e consultor, afirmou que um acordo com o México poderia reduzir preços ao consumidor e render ganho político ao governo Trump. Na avaliação dele, Washington poderia atribuir ao Canadá a falta de um desfecho regional mais amplo.


