O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou, em 10 de setembro de 2026, recomendações sobre a rotina de consultas oftalmológicas conforme a idade, doenças crônicas e outros fatores de risco. O documento foi lançado durante o 70º Congresso da especialidade, realizado em Salvador até 12 de setembro.
As orientações definem intervalos mínimos para pessoas sem doença ocular diagnosticada nem fatores de risco. Por outro lado, pacientes com diabetes, histórico familiar de glaucoma, miopia elevada e outras condições precisam de acompanhamento individualizado pelo oftalmologista.
Segundo o conselho, a consulta periódica ajuda a diagnosticar e tratar doenças que podem evoluir sem sintomas e causar perda visual irreversível. A entidade também destaca que consultas, exames e procedimentos devem ocorrer em serviços que atendam às exigências sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Documento orienta consultas por faixa etária
O CBO organiza a recomendação a partir das fases da vida. Para quem não tem diagnóstico ocular nem fator de risco, os intervalos funcionam como referência mínima, e não substituem a definição médica diante de cada caso.
Na infância, o calendário reúne avaliações voltadas ao desenvolvimento visual. Já entre adolescentes e adultos, a indicação considera tanto alterações que se tornam mais frequentes com a idade quanto problemas que podem não apresentar sinais iniciais.
Após os 40 anos, o conselho recomenda consulta anual. A orientação considera, entre outros pontos, o crescimento progressivo da presbiopia, conhecida como vista cansada, e a prevalência de glaucoma, estimada em cerca de 2% nessa faixa etária.
Maternidade inicia o cuidado visual
O acompanhamento deve começar ainda na maternidade com o teste do reflexo vermelho. O exame deve ser feito pelo pediatra nas primeiras 72 horas de vida ou antes da alta hospitalar; se houver alteração, o bebê precisa ser encaminhado com urgência ao especialista.
Esse teste pode detectar catarata e glaucoma congênitos, opacidades da córnea, tumores intraoculares, inflamações importantes e hemorragias intravítreas. Dos 0 aos 36 meses, o CBO recomenda repeti-lo nas consultas médicas pelo menos três vezes por ano, além da observação do desenvolvimento visual, da fixação e do alinhamento dos olhos.
Entre 6 e 12 meses, a indicação é fazer a primeira consulta oftalmológica completa. Dos 3 aos 5 anos, a criança deve passar ao menos por uma avaliação completa, preferencialmente antes da alfabetização, incluindo verificação da função visual, do alinhamento ocular, da refração e do fundo de olho.
Escola exige reavaliação da visão
Na idade escolar e na adolescência, o documento prevê reavaliações periódicas e uma consulta oftalmológica completa entre os 12 e os 18 anos. Esse é apontado como o período de maior aparecimento e progressão da miopia entre estudantes.
O CBO afirma que erros de refração não corrigidos, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, representam a principal causa de deficiência visual entre crianças brasileiras. Além da visão, o problema pode afetar o rendimento escolar e a socialização.
A ambliopia, chamada popularmente de olho preguiçoso, pode ser prevenida com exame oftalmológico realizado até os 3 anos, de acordo com o documento. Dados internacionais citados pelo conselho indicam que 40% das crianças cegas poderiam ter a condição evitada ou tratada com acesso oportuno ao especialista.
Adultos precisam manter avaliação periódica
Para adultos de até 39 anos, o CBO orienta avaliação periódica mesmo na ausência de sintomas. A recomendação se baseia na possibilidade de doenças relevantes ocorrerem nessa faixa etária sem sinais perceptíveis para o paciente.
A partir dos 40 anos, a consulta deve ser anual. Além do glaucoma e da presbiopia, essa etapa da vida exige atenção a alterações que podem se agravar com o envelhecimento.
Entre idosos, o acompanhamento anual é o mínimo indicado, com atenção reforçada para catarata senil e glaucoma. Com base em dados internacionais, o conselho estima que a degeneração macular atinja 2,2% das pessoas de 70 a 79 anos e até 10,3% das pessoas com 80 anos ou mais.
Doenças crônicas encurtam intervalos
Diabetes, hipertensão arterial, doenças reumatológicas e autoimunes, além do uso de medicamentos com potencial toxicidade ocular, exigem vigilância mais próxima. Nessas situações, o oftalmologista define se deve reduzir o intervalo entre consultas.
No caso do diabetes, o CBO recomenda exame com pupilas dilatadas desde o diagnóstico e acompanhamento regular, mesmo sem queixas visuais. Segundo o documento, cerca de metade dos pacientes desenvolve algum grau de retinopatia diabética; após 25 anos de doença, a proporção chega a aproximadamente 80%.
O histórico familiar de glaucoma também demanda exame completo em qualquer idade. Parentes de primeiro grau têm risco de quatro a oito vezes maior para a doença, conforme o conselho. Pessoas com mais de 50 anos, afrodescendentes e pacientes com pressão intraocular elevada integram os grupos de risco destacados.
Fatores específicos ampliam vigilância
Miopia elevada aumenta o risco de descolamento de retina, glaucoma e degeneração macular miópica. Para crianças míopes, a recomendação é acompanhamento a cada 12 meses; quando não há controle, o intervalo sugerido cai para seis meses.
Recém-nascidos com peso igual ou inferior a 1.500 gramas ou idade gestacional de até 32 semanas devem fazer rastreamento para retinopatia da prematuridade nas primeiras semanas de vida. Além disso, familiares de pessoas com ceratocone, distrofias corneanas ou retinose pigmentar devem buscar avaliação antecipada e periódica.
O uso prolongado ou recorrente de corticoides, sobretudo colírios e pomadas, requer acompanhamento para prevenir glaucoma. Usuários de lentes de contato devem consultar o oftalmologista ao menos uma vez por ano. O documento ainda cita a necessidade de consultas regulares para quem usa canetas emagrecedoras, diante de estudos que apontam possível associação com neuropatias ópticas e alterações da retinopatia diabética.
O CBO estima que o Brasil tenha cerca de 1,5 milhão de pessoas cegas. Catarata, glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular estão entre as principais causas no país e afetam sobretudo os idosos; por isso, o conselho ressalta o papel do diagnóstico precoce na prevenção e no tratamento da deficiência visual.


