Brasil busca parceria plena com a Asean e reabertura do mercado tailandês

Viagem de Mauro Vieira ao Sudeste Asiático combina negociações comerciais, aproximação diplomática e tratativas sobre segurança alimentar

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Redação
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Mauro Vieira visitou Singapura e a Tailândia para negociar a ampliação das relações do Brasil com a Asean.© Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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O Brasil busca ampliar sua presença no Sudeste Asiático com uma ofensiva diplomática que combina a tentativa de obter o status de parceiro de diálogo pleno da Asean e a reabertura do mercado da Tailândia para a carne brasileira. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, visitou Singapura e a Tailândia nesta semana para tratar desses objetivos.

A Associação de Nações do Sudeste Asiático reúne 11 países e já representa o quinto principal parceiro comercial do Brasil, atrás de China, União Europeia, Estados Unidos e Mercosul. Desde 2022, o país tem status de parceiro de diálogo setorial na organização.

Brasil tenta subir de status na Asean

O governo brasileiro negocia a transformação do atual vínculo setorial em uma parceria de diálogo pleno com a Asean. Esse nível permitiria aprofundar a interlocução com os países do bloco em áreas políticas, econômicas e de cooperação internacional.

Atualmente, 12 países ou blocos têm o status de parceiro pleno da associação: Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia, China, Canadá, Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Turquia e Organização das Nações Unidas.

Nenhum dos parceiros plenos atuais é da América Latina, do Caribe ou da África. Em Singapura, Vieira defendeu que o Brasil pode preencher essa lacuna, respeitando a decisão dos 11 membros da Asean.

O governo brasileiro avalia que a aprovação pode ocorrer na cúpula da organização, marcada para 10 a 12 de novembro, nas Filipinas, ou a partir de janeiro de 2027, quando Singapura assumirá a presidência do bloco.

Comércio com o bloco cresce rapidamente

O comércio entre o Brasil e os países da Asean passou de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025. O crescimento acumulado foi de dez vezes, com taxa média anual de 12% no período.

Entre 2023 e 2025, as exportações brasileiras para Singapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia somaram US$ 68,5 bilhões. O valor foi equivalente ao exportado para Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão e França no mesmo intervalo.

Além disso, o Brasil registrou superávit de US$ 36 bilhões com os cinco principais mercados da Asean. Com os cinco países do G7, o resultado foi um déficit de US$ 36,6 bilhões.

Para Mauro Vieira, o comércio brasileiro com a Asean poderá superar as trocas com os Estados Unidos e a Europa “num futuro próximo”. A viagem ocorre enquanto o Brasil procura diversificar seus parceiros comerciais em meio às tarifas adotadas pelo governo de Donald Trump.

Singapura concentra negócios estratégicos

A viagem de Mauro Vieira começou por Singapura, antes da participação brasileira na cúpula do Brics, na Índia. O chanceler se reuniu com o ministro das Relações Exteriores do país, Vivian Balakrishnan, e com representantes de cerca de 20 empresas dos dois países.

Singapura é o principal parceiro comercial do Brasil dentro da Asean e o segundo maior parceiro brasileiro na Ásia, atrás apenas da China. O fluxo comercial entre os dois países alcançou US$ 10,7 bilhões no ano passado, alta de 23% em relação a 2024.

Durante uma conferência com líderes políticos e empresariais, Vieira voltou a defender a entrada do Brasil como parceiro pleno da organização. Ele também afirmou que o país não pretende escolher entre parceiros nem excluir outros atores globais.

Em agosto, entrou em vigor a parceria de livre comércio entre o Mercosul e Singapura. Segundo o material apresentado pelo governo brasileiro, o acordo tende a reforçar os vínculos comerciais entre a América do Sul e o país asiático.

Tailândia negocia carne e segurança alimentar

Na segunda etapa da viagem, Vieira esteve na Tailândia entre 8 e 10 de setembro. Em Bangkok, reuniu-se com empresários e autoridades, incluindo o vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Sihasak Phuangketkeow.

Um dos objetivos da visita foi tratar da reabertura do mercado tailandês para a carne brasileira, fechado em 2024. O governo brasileiro também busca ampliar a cooperação em comércio, investimentos, ciência, tecnologia, inovação e segurança alimentar.

A Tailândia teve fluxo comercial de US$ 5,7 bilhões com o Brasil em 2025. O país tem mais de 71 milhões de habitantes e área próxima à do estado da Bahia.

Em artigo publicado no jornal Bangkok Post, Vieira afirmou que relações mais próximas entre América Latina e Sudeste Asiático podem ampliar a autonomia das duas regiões e fortalecer a voz do Sul Global.

Países ampliam cooperação consular

As conversas entre Brasil e Tailândia também incluíram o combate ao crime organizado internacional. A agenda tratou de tráfico de pessoas e fraudes cibernéticas, segundo o Itamaraty.

O Ministério das Relações Exteriores informou ainda que o governo tailandês mantém diálogo consular com o Brasil. A cooperação, de acordo com a pasta, foi decisiva em situações de resgate de trabalhadores.

Nos últimos meses, brasileiros foram atraídos por promessas de emprego no Sudeste Asiático e acabaram submetidos a condições análogas à escravidão. Por isso, a proteção consular entrou entre os temas da visita oficial.

Em Singapura, Vieira também se reuniu com a ministra do Meio Ambiente, Grace Fu. O encontro abordou temas da agenda ambiental, enquanto as reuniões com o chanceler Vivian Balakrishnan trataram da agenda geopolítica global e asiática.

Próximas etapas dependem da Asean

A eventual mudança de status do Brasil depende de uma decisão dos 11 países que integram a Asean: Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Timor-Leste, Mianmar, Brunei, Camboja e Laos.

O secretário-geral da organização, Kao Kim Hourn, esteve em Brasília em agosto. A visita ocorreu enquanto o governo brasileiro intensificava as negociações para ampliar sua participação institucional no Sudeste Asiático.

O calendário prevê duas possibilidades para uma eventual aprovação: a cúpula de novembro, nas Filipinas, ou o início de 2027, já durante a presidência de Singapura.

Enquanto a decisão diplomática não ocorre, o Brasil tenta consolidar relações comerciais e políticas com os países do bloco. A reabertura do mercado tailandês e o avanço do acordo com Singapura são frentes concretas dessa estratégia.

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