Os Estados Unidos informaram ter liberado a bilionésima mosca estéril no Texas como parte da resposta à mosca-varejeira do Novo Mundo. A praga deposita ovos em animais de sangue quente, inclusive humanos, e as larvas se alimentam de tecido vivo, podendo provocar infecções e morte.
A mobilização reúne instalações no Panamá e em Chiapas, no México, além de planos para ampliar a produção no Texas e criar uma unidade de dispersão no Arizona. A estratégia é relevante para a pecuária americana, mas também busca reduzir o risco para a fauna silvestre e animais de estimação.
Moscas estéreis interrompem reprodução
O método consiste em criar grandes quantidades de moscas, esterilizá-las por radiação e soltá-las nas áreas afetadas. Como as fêmeas selvagens da espécie acasalam apenas uma vez, o cruzamento com machos estéreis impede a geração de descendentes.
Essa técnica teve papel central na erradicação anterior da praga nos Estados Unidos, no México e na maior parte da América Central, segundo o material. Naquele período, o programa chegou a liberar 500 milhões de moscas estéreis por semana.
Porém, a estrutura montada décadas atrás foi desativada depois que a ameaça imediata diminuiu. A fábrica de Chiapas, que funcionava desde 1976, fechou em 2012, e o Panamá passou a concentrar a produção de moscas-varejeiras estéreis.
Praga avançou pela América Central
A mosca-varejeira voltou a avançar para o norte depois de romper, em 2023, as barreiras de contenção no Darién, faixa de floresta entre Colômbia e Panamá. Desde então, Panamá e México registraram infestações em milhares de animais.
Em junho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou os primeiros casos no país em anos. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, informou que os Estados Unidos tiveram 48 registros no total: 30 em junho, 14 em julho e quatro em agosto.
Segundo Rollins, havia três casos ativos no momento de sua declaração e nenhum caso em bovinos havia mais de um mês. Ela atribuiu o controle à ação conjunta de governos e pecuaristas, enquanto especialistas ouvidos no material alertaram que o baixo número inicial não elimina o risco de expansão.
Capacidade limita combate à mosca-varejeira
A capacidade de produção é o principal obstáculo apontado para a resposta. Em junho, Rollins disse que seriam necessárias entre 400 milhões e 500 milhões de moscas por semana, enquanto a única instalação então disponível no hemisfério produzia 100 milhões semanalmente.
Em plena capacidade, a unidade panamenha pode gerar 100 milhões de moscas por semana. A nova fábrica no México deve alcançar o mesmo volume, mas um funcionário do USDA afirmou que a operação pode levar cerca de seis meses após a inauguração para chegar a esse patamar.
Além disso, nem toda a produção atende aos Estados Unidos, pois Panamá e México também recebem moscas do programa. Metade dos insetos produzidos são fêmeas, que não contribuem diretamente para reduzir a reprodução das populações selvagens.
Texas ganha nova fábrica prevista para 2027
O USDA iniciou em abril a construção de uma fábrica no Texas. A previsão informada é de abertura no fim do próximo ano, com produção de 100 milhões de moscas por semana até o fim de 2027.
Até o fim de 2028, a unidade texana poderá acrescentar 300 milhões de moscas por semana, de acordo com o departamento. Ainda assim, a produção combinada pode ficar abaixo das 500 milhões de moscas semanais usadas durante a campanha histórica de erradicação.
Em julho, o USDA também anunciou investimento de US$ 25 milhões em uma instalação de dispersão de moscas estéreis no Arizona. A agência não divulgou um cronograma para a abertura dessa estrutura.
Tecnologia busca produzir apenas machos
Os Estados Unidos também testam no Panamá uma linhagem geneticamente modificada composta apenas por machos, chamada Novofly. A proposta é evitar a produção de fêmeas estéreis e, dessa forma, aproveitar uma parcela maior da capacidade das fábricas.
O entomologista Dave Taylor, que trabalhou por anos no desenvolvimento de métodos de combate à praga para o Serviço de Pesquisa Agrícola do USDA, avaliou que moscas exclusivamente machos poderiam representar uma grande melhoria. Segundo ele, as fêmeas estéreis podem desviar a atenção dos machos liberados das fêmeas selvagens férteis.
Maximillian Seunik, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Screwworm Free Future, defendeu a aceleração de tecnologias como a Novofly. Em janeiro, o USDA lançou o Screwworm Grand Challenge, programa de US$ 100 milhões para financiar projetos voltados a ampliar e aprimorar a produção de moscas estéreis.


