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Perfis de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) divulgaram imagens de práticas de religiões afro-brasileiras associando manifestações favoráveis a Lula (PT) a supostas ameaças espirituais ao candidato do PL. A circulação ocorreu na reta final do segundo turno presidencial e mobilizou influenciadores religiosos e políticos nas redes sociais.

Entre os episódios citados está uma postagem da influenciadora Bella Falconi, que recuperou uma previsão atribuída ao pastor angolano Edivaldo Simão sobre derramamento de sangue após uma eventual vitória de Flávio. A fala foi acompanhada de imagens religiosas e de uma representação de caixão em chamas com foto do candidato.

Imagens alimentam ataques

As associações feitas nas publicações não demonstram que praticantes de tradições afro-brasileiras tenham ameaçado fisicamente o senador. O uso de cenas sem contexto altera a interpretação de símbolos e cantigas cuja finalidade depende de tradição, circunstância e participantes.

O monitoramento dos conteúdos foi realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. A investigação apontou a utilização da ideia de guerra espiritual como recurso de mobilização de públicos religiosos durante a campanha.

Expressões como amarrar inimigos, dar um nó ou afastar adversários podem ter sentidos rituais de proteção.”

Carolina Rocha

Ato ocorreu em São Paulo

Um dos vídeos que impulsionaram as publicações foi registrado no Tambores pela Democracia, manifestação realizada na quinta-feira (22) no Largo da Batata, em São Paulo. Os participantes cantavam diante de velas e objetos rituais, e um trecho sobre manter Bolsonaro amarrado a um cipó foi destacado por páginas alinhadas ao bolsonarismo.

Uma conta secundária ligada ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou as imagens com uma referência ao Pai-Nosso. Os pastores Naor Pedroza e Eduardo Batista também divulgaram a cena, apresentando-a como sinal de uma suposta ameaça espiritual ou de confronto religioso.

Esse enquadramento transformou uma manifestação política com expressões rituais em peça de campanha sobre um embate entre bem e mal. A crítica não depende da religião dos apoiadores de cada candidato, mas do sentido atribuído às imagens e da ausência de comprovação da ameaça anunciada.

Cantiga expressa proteção

O Coletivo Bereia, voltado à checagem de conteúdos religiosos, não identificou evidências de uma ameaça de morte feita pelos participantes do ato. O pai de santo David Dias explicou que a cantiga adaptada tem origem na tradição da Jurema, de matriz afro-indígena e com raízes no Nordeste.

Conforme a interpretação apresentada por Dias, a letra expressa o desejo de conter forças vistas como ameaçadoras à mata e aos povos tradicionais, sem equivaler a uma declaração literal de assassinato ou de doença contra um adversário político.

A pesquisadora Carolina Rocha, do Instituto de Estudos da Religião, ressalta que expressões como amarrar inimigos ou afastar adversários podem ter função simbólica e protetiva. Para interpretar o canto, é necessário compreender a linguagem ritual, em vez de transportar literalmente palavras para o campo de acusações criminais.

Precedentes marcam disputas

A exploração de práticas religiosas afro-brasileiras em campanhas eleitorais não é inédita. Em 2022, Michelle Bolsonaro compartilhou imagens de Lula em um banho de pipoca, ritual associado à umbanda, acompanhadas de uma crítica à forma como expressões religiosas eram tratadas no debate político.

Outra publicação daquele período associou o presidente a uma suposta entrega da alma para vencer a eleição. As afirmações fizeram parte de disputas discursivas entre grupos políticos e não constituem provas de atos sobrenaturais ou de intenção criminosa.

Em 2024, circulou uma montagem falsa que atribuía a um jornal uma alegação de ritual encomendado por Janja para influenciar a cotação do dólar. O episódio é exemplo do uso de linguagem religiosa e desinformação em controvérsias políticas. A liberdade de crença e de culto é protegida pela Constituição brasileira.

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