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Mais de 2.800 crianças da Faixa de Gaza foram admitidas para tratamento de desnutrição em setembro, enquanto novas restrições à chegada de alimentos e a redução da ajuda internacional agravam a situação das famílias palestinas. Entre as crianças atendidas, mais de 360 apresentavam desnutrição aguda grave, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) informou que a falta de recursos financeiros reduziu de 1,6 milhão, em setembro, para 1,1 milhão, em outubro, o número de pessoas assistidas. Israel suspendeu remessas comerciais ao território em 14 de outubro e anunciou retomada gradual em 19 de outubro.

Refeições diminuem drasticamente

O PAM diminuiu o fornecimento diário de refeições quentes de 250 mil para 150 mil, uma redução de 100 mil por dia. A organização atribuiu a decisão à insuficiência de financiamento para manter o atendimento no nível anterior.

A agência calcula que aproximadamente 1,4 milhão de moradores, cerca de dois terços da população, enfrentam insegurança alimentar aguda. Essa categoria considera acesso inadequado à alimentação e riscos importantes para a saúde e a subsistência.

As dificuldades atingem principalmente famílias sem renda, pessoas deslocadas pela guerra e moradores que dependem de cozinhas comunitárias ou da distribuição de alimentos. A escassez de produtos também pressiona os preços nos mercados.

Em relato à Al Jazeera reproduzido pela RTP, uma mulher que vive com cinco crianças afirmou que a interrupção das mercadorias atingiu imediatamente a alimentação doméstica. Ela descreveu a ausência de ovos e leite e a dificuldade de comprar alimentos básicos.

Não conseguimos encontrar ovos nem leite e não temos dinheiro para comprar outra comida.”

Moradora de Gaza, em relato à Al Jazeera

Bloqueio interrompeu abastecimento

Israel interrompeu o transporte comercial de mercadorias para Gaza em 14 de outubro, no contexto de uma disputa envolvendo cobranças exigidas de comerciantes pelo Hamas. Autoridades israelenses apontaram a cobrança como obstáculo para a atividade comercial.

O grupo palestino descreveu os valores como contribuições voluntárias destinadas a um fundo de auxílio a vítimas da guerra. Essa versão diverge da caracterização da cobrança feita no contexto da suspensão dos envios.

O anúncio de retomada gradual dos transportes, em 19 de outubro, não significa que as prateleiras e as estruturas de distribuição tenham sido imediatamente reabastecidas. A recomposição da oferta depende da entrada efetiva de mercadorias e de condições de transporte dentro do enclave.

Relatos de moradores apontam preços elevados para produtos simples, como cebolas e tomates. A combinação de oferta limitada, perda de renda e destruição econômica restringe o acesso às refeições, mesmo quando alguns alimentos voltam a aparecer nos mercados.

Crianças sofrem consequências prolongadas

Uma avaliação nutricional apoiada pelo UNICEF e divulgada em agosto identificou atraso no crescimento em 12,2% das crianças com menos de cinco anos. O indicador está associado a problemas prolongados de nutrição e saúde e não deve ser confundido com o número de admissões hospitalares por desnutrição aguda.

O pediatra Mohamed Alraee afirmou que o tratamento de algumas crianças pode exigir de três a seis meses. Segundo ele, a entrada temporária de alimentos não resolve de imediato os casos acumulados durante períodos extensos de privação.

As crianças não se recuperam da desnutrição em um ou dois meses.”

Mohamed Alraee, pediatra em Gaza

A recuperação depende de acompanhamento clínico, alimentos nutricionalmente adequados, água segura e acesso a unidades de saúde. Crianças com quadros graves precisam de atendimento especializado, enquanto casos de atraso no crescimento exigem ações sustentadas ao longo do tempo.

ONU aponta crise generalizada

Agências humanitárias alertam que o desemprego em Gaza permanece elevado em consequência da guerra e da destruição de infraestrutura. A perda de trabalho e de condições produtivas impede que muitas famílias comprem alimentos disponíveis no mercado.

As restrições à reconstrução de estruturas econômicas e de serviços também dificultam a distribuição. Mesmo com a retomada parcial de remessas comerciais, moradores dependem de apoio externo para garantir alimentação suficiente.

O corte anunciado pelo PAM ocorreu quando aproximadamente 1,4 milhão de pessoas ainda enfrentavam insegurança alimentar aguda. Os dados divulgados em outubro apontam necessidade de assistência contínua para conter novos casos de desnutrição infantil.

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