A Polícia Civil do Ceará concluiu o inquérito policial que investigava a morte da estudante Isabelle Caracristi, de 22 anos, ocorrida em 13 de setembro após uma queda do 23º andar de um condomínio na área nobre de Fortaleza. O namorado da vítima, João Munhoz Neto, de 34 anos, foi indiciado sob suspeita de violência psicológica e fraude processual, encerrando uma fase importante de apurações conduzidas pela segurança pública estadual no bairro Aldeota.
A investigação reuniu um volume expressivo de provas técnicas e depoimentos para esclarecer os fatos ocorridos no condomínio localizado na capital cearense. Ao todo, a polícia ouviu 29 testemunhas e analisou cerca de 700 vídeos capturados por câmeras de segurança do edifício. A Perícia Forense do Ceará elaborou 17 laudos técnicos específicos, abrangendo exames de necropsia, toxicologia, análises de DNA e verificações detalhadas em mídias digitais com o suporte de mais de vinte peritos.
Apesar do indiciamento do namorado por crimes específicos, os laudos periciais e a investigação técnica descartaram a ocorrência de homicídio ou agressão física direta no momento do evento fatal. A perícia concluiu formalmente que o caso foi tratado como suicídio, sem encontrar sinais de luta corporal no corpo da jovem. No entanto, o inquérito aprofundou a apuração sobre o comportamento do investigado durante a relação e após a tragédia ocorrida no mês de setembro.
Dinâmica da noite investigada
Segundo o levantamento policial, Isabelle passou parte do dia 13 de setembro na casa da mãe, Isorlanda Caracristi. No fim da tarde, ela retornou ao condomínio onde morava com Munhoz e a família dele em Fortaleza. Por volta das 18h30, o namorado deixou o edifício para ir a uma missa, enquanto a estudante permaneceu no local nas dependências do prédio residencial.
Registros de câmeras de segurança mostraram que Isabelle foi vista sozinha no elevador às 19h12, segurando o celular e seguindo em direção ao 23º andar, onde ficava o terraço do edifício. Essa foi a última aparição registrada da estudante pelas lentes do circuito interno. A estimativa técnica aponta que a queda mortal ocorreu por volta das 20h40, antes do retorno do companheiro ao local.
O namorado só voltou ao condomínio às 22h48, em horário posterior à morte da estudante. A apuração policial detalhou que, após retornar, ele teria tentado localizar o celular da vítima, além de não ter avisado imediatamente a família de Isabelle sobre o ocorrido, o que motivou a suspeita de interferência e gerou desdobramentos na investigação processual.
Relatos e ameaças revelados
Parte essencial das evidências reunidas pela polícia veio do exame do aparelho celular de Isabelle Caracristi. Familiares e amigos próximos relataram às autoridades que a jovem vivia sob forte controle e vigilância do companheiro. Em depoimentos prestados durante o inquérito, a mãe da vítima afirmou que a filha não tinha autonomia e que o namorado chegou a pedir para usar o cartão dela e tentar colocar uma empresa em seu nome.
Estão acontecendo coisas sérias, coisas graves, que eu venho guardando só para mim. São ameaças diretas vindas dele.”
Isabelle Caracristi
Pouco antes de morrer, a estudante enviou mensagens em áudio para um primo e para uma amiga relatando o clima de tensão que enfrentava no relacionamento. Nos registros de voz recuperados pelos investigadores, Isabelle expunha o receio e o peso das situações que vinha enfrentando em segredo no cotidiano com o companheiro investigado.
A defesa de João Munhoz Neto, representada pela advogada Lígia Peixe, foi procurada pela reportagem para comentar as conclusões do inquérito policial, mas não houve resposta até a publicação. Em manifestações anteriores registradas no processo, a defesa negou qualquer envolvimento na morte, afirmou que ele colaborou com as autoridades e argumentou que os áudios enviados pela jovem foram retirados de seu contexto original.
Prisão e cautelares aplicadas
O indiciamento atual difere da linha de investigação inicial que havia resultado na prisão preventiva de Munhoz em 22 de setembro. Naquela fase, a polícia chegou a apurar a hipótese de induzimento ou instigação ao suicídio, mas a tipificação foi ajustada ao longo da conclusão dos trabalhos periciais e depoimentos reunidos pela delegacia responsável.
O investigado deixou a prisão em 1º de outubro após a 5ª Vara do Júri de Fortaleza acolher manifestação favorável emitida pelo Ministério Público estadual. A soltura foi acompanhada pela imposição de medidas cautelares rigorosas, incluindo o uso de monitoramento eletrônico, a proibição de deixar a comarca e a determinação de manter distância dos familiares da vítima.
A investigação policial foi encerrada com a oitiva de 29 testemunhas e a análise de aproximadamente 700 arquivos de vídeo. Com a conclusão do inquérito remetido ao Poder Judiciário, o processo seguirá para a análise do Ministério Público e da Justiça para a definição das próximas etapas judiciais cabíveis ao caso.
Laudos detalham o caso
A complexidade técnica do caso exigiu a mobilização de uma estrutura expressiva da segurança pública do estado. A Perícia Forense do Ceará destacou dezenas de profissionais para analisar minuciosamente todos os vestígios materiais deixados no condomínio localizado no bairro Aldeota durante a noite da ocorrência fatal.
Ao todo, 22 peritos e auxiliares participaram diretamente dos trabalhos científicos, produzindo 17 laudos técnicos específicos. Os documentos englobaram exames necroscópicos detalhados, análises toxicológicas completas, confronto de DNA e varreduras aprofundadas em mídias digitais para reconstruir os passos do casal.
O material coletado e examinado pela perícia serviu de base para fundamentar as conclusões técnicas da Polícia Civil, permitindo delimitar os aspectos criminais do inquérito sem deixar lacunas sobre as circunstâncias físicas apuradas no local da morte.


