O governo brasileiro enfrenta um cenário de espaço fiscal cada vez mais restrito para continuar contendo os preços dos combustíveis por meio de subsídios. Analistas do mercado financeiro apontam que eventuais intervenções para amortecer choques internacionais encontram barreiras intransponíveis nas regras do arcabouço fiscal e na falta de margem no orçamento público vigente.
Historicamente, desonerações e subsídios têm sido aplicados como ferramentas de política econômica para conter a inflação no curto prazo. No entanto, economistas alertam que o custo dessa estratégia para as contas públicas e para a arrecadação pode atingir um patamar insustentável caso o mercado global de petróleo sofra novas altas expressivas nos próximos meses.
Segundo o estrategista-chefe da Monte Bravo, Rai Chicoli, a capacidade de manobra da administração federal está próxima do esgotamento diante da dinâmica atual das cotações da commodity energética no cenário internacional.
Tesouro esgota margem fiscal
A avaliação predominante entre especialistas é de que a administração central esgotou boa parte dos instrumentos tradicionais de intervenção direta. Manter os preços artificialmente baixos exige recursos que o Tesouro Nacional atualmente não possui sem comprometer as metas fiscais estabelecidas.
A economista-chefe da Mirae Asset no Brasil, Marianna Costa, reforça que novas rodadas de subsídios exigiriam medidas drásticas de compensação. Sob as regras vigentes, qualquer ampliação de gastos dessa natureza esbarra diretamente nas limitações impostas pela legislação fiscal.
Parece que o governo já fez tudo o que podia fazer e vai chegar um momento em que vai estar mais gastando para manter os preços do que arrecadando por conta do petróleo mais alto.”
Rai Chicoli
Para viabilizar novos repasses ou desonerações, o governo precisaria adotar medidas impopulares como o contingenciamento de verbas essenciais ou a abertura de créditos extraordinários. Ambas as alternativas encontram forte resistência técnica e política na Esplanada dos Ministérios.
Impacto do diesel americano
O mercado brasileiro também permanece altamente vulnerável aos desdobramentos externos, especialmente no que tange ao mercado norte-americano. Com o galão do diesel em patamares elevados nos Estados Unidos, cresce a pressão política interna naquele país por medidas de restrição às exportações.
Caso ocorram embargos ou limitações ao envio de combustíveis ao exterior por parte de Washington, o impacto para o Brasil seria imediato. O país mantém uma dependência relevante de importações de diesel vindas do mercado norte-americano, sobretudo após as sanções aplicadas contra a Rússia.
Um eventual choque na oferta externa obrigaria o repasse integral dos custos para o consumidor final, afetando severamente a cadeia de fretes, o setor de transporte rodoviário e a formação de preços de diversos bens industriais em território nacional.
Caminhoneiros enfrentam encarecimento
Diante da impossibilidade de o governo absorver integralmente choques externos prolongados, o ajuste da economia pode ocorrer de maneira forçada pela própria demanda. Especialistas apontam que os custos operacionais extremos inviabilizam a atividade de pequenos operadores.
Para Rai Chicoli, o encarecimento drástico dos insumos pode paralisar frotas inteiras caso o frete deixe de ser rentável. A inviabilidade econômica para motoristas autônomos e caminhoneiros funcionaria como um regulador automático do consumo, reduzindo o tráfego nas rodovias.
Sob as regras do arcabouço fiscal e sem margem no orçamento, estender ou ampliar novas rodadas de subsídio exige o remanejamento de verbas ou o aumento do déficit público.”
Marianna Costa
Essa dinâmica de retração na atividade de transporte tende a desacelerar a circulação de mercadorias, impondo novos desafios para a cadeia de suprimentos e adicionando complexidade ao cenário macroeconômico brasileiro no curto prazo.
Pressão sobre a inflação
A conjuntura internacional desfavorável soma-se a fatores internos na equação de risco para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo. O economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, destaca que o país caminha para um período de reaceleração inflacionária.
Além da volatilidade nos derivados de petróleo, a economia doméstica absorve gradualmente os efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño e a exaustão de medidas paliativas que seguraram os índices de preços ao longo dos meses anteriores do ano.
Com margens operacionais estranguladas e sem espaço orçamentário para novas intervenções federais expressivas, o monitoramento do mercado de commodities passa a ser o termômetro definitivo para a estabilidade econômica dos próximos trimestres.


