O TikTok recomendou no feed “Para Você” vídeos publicados por perfis oficiais de candidatos que deveriam ser excluídos desse tipo de distribuição algorítmica, conforme apontou um estudo divulgado pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A falha no cumprimento das normas eleitorais ocorreu durante testes realizados entre os dias 14 e 16 de setembro, quando os pesquisadores monitoraram a exibição de conteúdos políticos sem impulsionamento pago.
Em três dias de análises, a equipe registrou 24 recomendações de conteúdos provenientes de 11 contas oficiais de candidatos que haviam sido devidamente informadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os vídeos apareceram repentinamente para sessões de navegação em que os usuários não seguiam os perfis citados, evidenciando um desvio no funcionamento esperado do sistema de recomendação da plataforma durante o período de campanha.
Pesquisa detalha falhas algorítmicas
A resolução do TSE que disciplina a propaganda eleitoral determina expressamente que as plataformas que utilizam sistemas de recomendação excluam dos resultados os canais e perfis informados à Justiça Eleitoral. A norma estabelece que a responsabilidade pelo cumprimento recai sobre as empresas de tecnologia, e não sobre as campanhas políticas, que não possuem controle direto sobre os algoritmos de distribuição de conteúdo.
O TikTok proíbe publicidade política paga em sua plataforma, o que significa que todas as exibições detectadas pelos pesquisadores ocorreram de forma orgânica. No plano de conformidade apresentado ao TSE antes do pleito, a empresa havia garantido que tornaria contas de candidatos oficialmente listadas e seus respectivos conteúdos inelegíveis para qualquer recomendação no feed principal de navegação.
Para realizar o levantamento técnico, quatro pesquisadores utilizaram a versão web do TikTok sem fazer login, após removerem todos os cookies e dados de navegação armazenados. Inicialmente, a equipe monitorou sessões de controle sem interações e, posteriormente, estruturou perfis de consumo simulados para testar o comportamento do algoritmo diante de diferentes alinhamentos políticos prévios.
Candidatos mais recomendados aparecem
Entre os políticos cujos conteúdos foram impulsionados indevidamente pelo algoritmo, Flávio Bolsonaro (PL) registrou cinco recomendações durante os testes realizados. Em seguida, apareceram Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG), com quatro registros cada, além de menções a figuras como o presidente Lula (PT), Rony Gabriel (Podemos-RS) e Rubinho Nunes (União Brasil-SP).
O estudo apontou ainda que as contas de candidatos foram recomendadas prioritariamente para as personas de consumo que haviam sido treinadas com conteúdos politicamente alinhados a elas. A única exceção documentada na nota técnica envolveu a exibição de um vídeo de Nikolas Ferreira para uma persona que havia consumido exclusivamente material relacionado à candidatura de Lula.
As campanhas dos políticos citados no levantamento foram procuradas pela reportagem, mas afirmaram não ter conhecimento prévio das recomendações e ressaltaram que não possuem qualquer ingerência sobre o sistema de distribuição da plataforma. Algumas equipes jurídicas informaram que pretendem notificar formalmente a empresa para exigir a adequação imediata dos perfis às exigências da Justiça Eleitoral.
Plataforma rebate e cita remoções
Procurado pela reportagem para esclarecer os motivos das falhas apontadas, o TikTok declarou por meio de nota oficial que trabalha em parceria constante com o TSE e que cumpre rigorosamente a legislação eleitoral vigente. A empresa, no entanto, evitou comentar especificamente por que os vídeos monitorados pelo NetLab foram recomendados ou se o episódio representa uma falha em seu plano de conformidade.
A companhia destacou que removeu 348.963 vídeos no Brasil entre 1º de junho e 6 de setembro devido a violações de políticas de integridade eleitoral, desinformação e conteúdos enganosos gerados por inteligência artificial. Segundo o balanço divulgado pela empresa, a grande maioria desses materiais foi retirada do ar de forma automatizada antes mesmo de receber denúncias de usuários ou órgãos oficiais.
Apesar dos dados de moderação apresentados pela empresa de tecnologia, os pesquisadores ressaltam que os resultados obtidos refletem o comportamento específico do sistema durante o período monitorado. A nota técnica esclarece que a auditoria não permite esgotar todas as variáveis do algoritmo, mas evidencia lacunas operacionais na aplicação das regras de restrição estabelecidas para o pleito.
Especialistas cobram maior rigor
O episódio gerou debates entre especialistas em direito eleitoral e transparência digital sobre a eficácia dos mecanismos de controle adotados pelas grandes empresas de tecnologia durante as campanhas. Juristas apontam que a exibição orgânica de conteúdos políticos de candidatos em feeds de recomendação pode desequilibrar a disputa ao conferir visibilidade não autorizada a determinados concorrentes em detrimento de outros.
Representantes de entidades de acompanhamento tecnológico reforçam que a responsabilidade de impedir a distribuição inadequada é intransferível e exige auditorias constantes por parte das plataformas. Com o avanço do calendário eleitoral, cresce a pressão de órgãos fiscalizadores para que bugs e desvios algorítmicos sejam corrigidos com maior agilidade pelas empresas responsáveis.
Enquanto o debate sobre a regulação das redes sociais continua repercutindo nos tribunais e no meio acadêmico, o TSE monitora eventuais descumprimentos das resoluções vigentes. As equipes técnicas dos tribunais avaliam se as ocorrências documentadas pelo estudo justificam a abertura de procedimentos adicionais de fiscalização contra as plataformas de vídeo.


