O impacto da recusa às vacinas na saúde das gestantes brasileiras

Mitos e acomodação mantêm índices distantes da meta oficial e expõem recém-nascidos a infecções respiratórias graves

Da
Redação
A Redação do Jornal Maior reúne a produção jornalística do portal, com cobertura dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
8 min leitura
Unidades de saúde reforçam a importância da caderneta de vacinação atualizada durante o pré-natal para proteger mães e bebês.
Ouvir notícia
00:00 / 00:00

A cobertura vacinal contra covid-19 e influenza entre gestantes no Brasil continua abaixo da meta de 90% estabelecida pelas autoridades de saúde pública. Especialistas e representantes do Ministério da Saúde alertam que a hesitação e a desinformação expõem grávidas e recém-nascidos a quadros graves de infecções respiratórias, hospitalizações e mortes evitáveis. Enquanto a vacina contra a gripe sofre com a acomodação e a desvalorização da doença, o imunizante contra o coronavírus enfrenta mitos infundados sobre sua segurança e eficácia.

Dados consolidados mostram que, em 2025, apenas 55% das grávidas se vacinaram contra a covid-19 e 63% receberam o imunizante contra a influenza nas regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste. Embora os números preliminares apontem um avanço para 76% na vacinação contra a gripe, o índice da covid-19 permanece estagnado no mesmo patamar anterior. A falta de proteção adequada transforma gestantes em um dos grupos mais vulneráveis a complicações severas durante os períodos de circulação de vírus respiratórios.

Entre 2022 e o início de agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes ou puérperas desenvolveram síndrome respiratória aguda grave após infecção pelo vírus influenza, resultando em 25 óbitos, sendo sete deles registrados apenas neste ano. No mesmo intervalo, a covid-19 provocou pelo menos 205 casos graves de SRAG e 21 mortes no público gestante. Durante os anos mais críticos da pandemia, entre 2020 e 2022, o impacto foi ainda mais drástico, com 3.547 casos e 811 mortes registradas entre grávidas e puérperas no país.

Fatores da baixa adesão

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Flávia Bravo, aponta que o cenário atual é sustentado por comportamentos distintos em relação a cada imunizante. No caso da gripe, há uma percepção generalizada de que o vírus não representa um perigo real. Já em relação à covid-19, o obstáculo principal reside na propagação de narrativas falsas sobre a rapidez no desenvolvimento das tecnologias vacinais.

Especialistas reforçam que os imunizantes aplicados em gestantes passaram por rigorosos testes clínicos e são seguros tanto para a mãe quanto para o feto. A ginecologista Giuliane Lajos destaca que a vacinação em massa reduziu drasticamente as taxas históricas de mortalidade e morbidade materna, alterando positivamente o panorama obstétrico nacional.

Além dos riscos diretos à saúde da mulher, a ausência de imunização eleva a probabilidade de complicações obstétricas graves, como o sofrimento placentário e a prematuridade. O acompanhamento rigoroso no pré-natal e a atuação ativa de agentes comunitários de saúde tornam-se ferramentas fundamentais para reverter a desinformação e garantir o acesso rápido às doses disponíveis na rede pública.

Proteção aos recém-nascidos

A imunização durante a gestação desempenha um papel duplo, protegendo a mulher e garantindo a transferência ativa de anticorpos ao bebê pela placenta. Como os calendários infantis preveem o início da vacinação contra covid-19 e influenza apenas a partir dos seis meses de vida, os recém-nascidos dependem inteiramente da imunidade materna para resistir às infecções no início da vida.

Em relação à gripe, as pessoas ainda pensam: ‘Será que essa vacina é tão importante assim?’. Há uma desvalorização da doença.”

Flávia Bravo, diretora da SBIm

Ensaios clínicos publicados demonstram que a vacinação materna reduz expressivamente a incidência de infecções respiratórias graves em bebês nos primeiros meses após o parto. A presença de anticorpos no cordão umbilical comprova a eficácia da transferência protetiva, oferecendo uma barreira imunológica importante contra vírus que continuam a provocar internações pediátricas expressivas em todo o território nacional.

A introdução bem-sucedida de novas tecnologias, como a vacinação contra o vírus sincicial respiratório em gestantes, ilustra o potencial de cobertura da rede pública quando há engajamento. A estratégia reduziu significativamente os registros de casos graves em bebês com até seis meses de idade, reforçando que a prevenção sistemática durante o pré-natal é a principal arma da saúde pública contra a mortalidade infantil.

Calendário ampliado no SUS

O Sistema Único de Saúde disponibiliza gratuitamente um conjunto abrangente de imunizantes essenciais para o público gestante, indo além das vacinas contra covid-19 e gripe. O checklist oficial inclui proteção contra hepatite B, difteria, tétano, coqueluche com a vacina dTpa e o vírus sincicial respiratório, além da indicação restrita para febre amarela em áreas de surto ou recomendação epidemiológica específica.

A ginecologista Giuliane Lajos ressalta que o planejamento familiar e o acompanhamento médico devem priorizar a atualização imediata da caderneta de vacinação logo nas primeiras consultas. A integração entre exames de rotina e a aplicação simultânea de doses nas unidades básicas evita a evasão e assegura que nenhuma gestante permaneça desprotegida durante os meses de gestação.

Estratégias de busca ativa implementadas por equipes de saúde da família, com ligações de lembrete, visitas domiciliares e campanhas em grupos de gestantes, têm demonstrado eficácia na adesão. O envolvimento de familiares e o esclarecimento de dúvidas em ambientes de acolhimento reduzem a hesitação e transformam a imunização em um hábito integrado ao cotidiano do pré-natal brasileiro.

Desafios da coqueluche

Historicamente, a vacinação em massa de mulheres e gestantes permitiu conquistas expressivas para a saúde pública brasileira, como a erradicação do tétano neonatal e o controle rigoroso da difteria. No entanto, o surgimento de surtos de coqueluche exigiu a incorporação de novas formulações, como a dTpa, para proteger os recém-nascidos contra a bactéria Bordetella pertussis nos primeiros meses de vida.

Dados epidemiológicos indicam que, embora o número total de infecções por coqueluche venha oscilando nos últimos anos, a proporção de casos graves e óbitos permanece concentrada em bebês com menos de um ano de idade, especialmente os menores de seis meses. A alta cobertura da dTpa em gestantes registrada nos últimos anos tem sido determinante para conter a gravidade e a propagação da doença entre os lactentes.

Especialistas reforçam que o combate à desinformação científica entre profissionais da área de saúde e pacientes continua sendo um desafio constante. O acesso facilitado a informações confiáveis e o fortalecimento das recomendações médicas no atendimento básico consolidam a vacinação como um pilar indispensável para a preservação da vida materna e infantil no Brasil.

WhatsAppFacebook
Share This Article