O Ministério da Saúde atualizou suas diretrizes e passou a recomendar a vacinação contra o papilomavírus humano para meninas e meninos a partir dos 2 anos de idade que tenham sido vítimas de violência sexual. Até o momento da mudança, a imunização era oferecida apenas para crianças e adolescentes com 9 anos ou mais que sofriam algum tipo de abuso. A alteração na política pública ocorre em decorrência do crescimento expressivo nos registros de estupro e estupro de vulnerável em todo o país, atingindo principalmente a parcela mais jovem da população.
Ampliação da faixa etária
De acordo com nota técnica divulgada pela pasta, a decisão foi tomada após a constatação de um avanço progressivo nas ocorrências, com destaque para a vulnerabilidade de crianças menores de 9 anos. O documento oficial aponta que os dados fornecidos pelas secretarias estaduais de Segurança Pública evidenciam esse cenário alarmante. A medida estabelece que crianças a partir dos 2 anos vítimas de violência sexual poderão receber uma dose da vacina quadrivalente após avaliação do serviço de referência.
A nota técnica cita números do Atlas da Violência 2026, do Ipea, segundo o qual os casos de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos passaram de 1.671, em 2014, para 7.845, em 2024. Na faixa etária de 5 a 14 anos, os registros saltaram de 6.594 para 29.135 no mesmo período. As estatísticas demonstram a urgência de novas estratégias de proteção para o público infantil.
Isso é relevante especialmente diante do risco de recorrência da violência sexual, uma vez que os abusos contra crianças costumam ser cometidos por pessoas próximas, como familiares, conhecidos e vizinhos, e podem se repetir.”
Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações
Proteção e combate ao vírus
O HPV é uma família de mais de 200 tipos de vírus. A infecção costuma desaparecer sozinha, mas a permanência prolongada de tipos de alto risco pode provocar alterações celulares e causar câncer. No SUS, a vacina quadrivalente protege contra quatro tipos do vírus, sendo dois de baixo risco e dois de alto risco associados a diferentes tipos de tumores.
O imunizante não é capaz de reverter eventual infecção decorrente de estupro, mas pode proteger a vítima contra os demais tipos aos quais não tenha sido exposta. Especialistas ressaltam que a medida é importante para prevenir novas exposições, já que o risco de recorrência existe em casos de violência cometida por pessoas próximas.
Esquema vacinal de rotina
A aplicação da vacina antes dos 9 anos não substitui a imunização de rotina, indicada dos 9 aos 14 anos em esquema de dose única. Como ainda não se sabe por quanto tempo dura a proteção obtida precocemente, quem receber a dose mais cedo precisará seguir o calendário regular posteriormente.
O Programa Nacional de Imunizações já utiliza a vacina contra o HPV a partir dos 2 anos para casos específicos de papilomatose respiratória recorrente. A pasta também embasou a decisão em estudos internacionais sobre a segurança e a resposta imunológica em crianças pequenas, embora ressalve a necessidade de novas pesquisas sobre a eficácia clínica exata.


