A proibição do presidente Donald Trump sobre bebidas alcoólicas canadenses entrou em vigor nesta terça-feira (29), em uma medida sem precedentes que evidencia o colapso de uma das relações comerciais mais estreitas do mundo. A restrição afeta diretamente US$ 800 milhões em produtos importados pelos Estados Unidos no ano passado, marcando um novo capítulo na escalada de retaliações tarifárias entre os dois governos vizinhos.
Horas antes de a medida passar a valer, o presidente americano manifestou confiança em um desfecho favorável e declarou que espera que o Canadá busque um acordo em breve. Do outro lado da fronteira, contudo, o primeiro-ministro canadense Mark Carney não sinalizou recuo. Analistas apontam que a decisão funciona principalmente como um instrumento de pressão política para forçar negociações.
Especialistas apontam impactos limitados
Especialistas em comércio internacional indicam que a maioria dos consumidores americanos dificilmente perceberá os impactos da proibição de forma imediata. O cenário decorre de brechas regulatórias, isenções específicas e do fato de que os distribuidores locais conseguiram formar estoques expressivos de bebidas canadenses antes do endurecimento das regras federais.
Além disso, a legislação adotada por Washington prevê exceções importantes para remessas a granel. Uísque e licores vendidos em recipientes maiores do que quatro litros ficaram isentos da proibição e de tarifas adicionais, embora a adaptação logística para o reenvio em grandes volumes possa elevar os custos operacionais das empresas afetadas.
Marcas tradicionais como a Crown Royal encontram-se em posição menos vulnerável devido ao envio prévio de remessas a granel para engarrafamento em território americano. Ainda assim, entidades do setor manifestaram profunda preocupação com os desdobramentos da disputa econômica e os reflexos sobre o mercado consumidor.
Governo americano invoca lei
Para implementar a proibição alfandegária, o governo americano recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, legislação famosa por agravar a Grande Depressão. Como nenhum presidente havia utilizado o dispositivo dessa maneira no passado, a medida abre um precedente jurídico inédito sem jurisprudência consolidada nos tribunais dos Estados Unidos.
A ofensiva de Washington ocorre em resposta a restrições impostas por províncias canadenses, como Ontário, que retiraram bebidas alcoólicas americanas das prateleiras em março de 2025. Dados do setor apontam que as exportações de destilados dos Estados Unidos para o mercado canadense despencaram 70% desde o início da retaliação provincial.
Por outro lado, a indústria canadense de bebidas depende fortemente dos consumidores americanos, para onde foram direcionados cerca de 93% dos destilados do país no último ano. Representantes comerciais alertam que a proibição federal pode causar prejuízos severos aos produtores do país vizinho caso o impasse não seja solucionado.
Empresários criticam forte medida
Lideranças empresariais criticaram a introdução de barreiras comerciais em um segmento historicamente integrado. É realmente lamentável que nosso setor tenha sido arrastado para isso, afirmou Chris Swonger, presidente e CEO do Distilled Spirits Council of the United States, ao lamentar o envolvimento de fabricantes de bebidas na disputa geopolítica.
Gerentes de estabelecimentos comerciais localizados em cidades fronteiriças, como Niagara Falls e Port Huron, relataram apreensão quanto ao abastecimento e à perda de clientes estrangeiros. Lojistas destacam que a circulação de consumidores canadenses já havia diminuído nos últimos meses, refletindo o clima de instabilidade econômica entre as nações.
Especialistas em comércio exterior reforçam que o ciclo de retaliações mútuas demonstra como medidas protecionistas tendem a escapar do controle institucional. Analistas do Peterson Institute for International Economics avaliam que o uso de proibições de importação contra um aliado histórico representa um desvio drástico na política comercial americana.
Casas Branca atinge produtos
Além das bebidas alcoólicas, o pacote de restrições comerciais imposto pela Casa Branca atinge outros setores da economia canadense. Produtos lácteos, como o soro de leite, e motocicletas também passaram a ser proibidos de entrar nos Estados Unidos sob a justificativa de tratamento discriminatório contra empresas norte-americanas.
No total, as proibições decretadas pelo governo Trump alcançam cerca de US$ 1 bilhão em mercadorias importadas do Canadá no ano anterior, conforme registros oficiais de comércio exterior. A ampliação das barreiras comerciais intensifica a pressão sobre Ottawa enquanto o cenário político interno nos Estados Unidos caminha para novas eleições de meio de mandato.
Enquanto o impasse comercial permanece sem solução negociada, autoridades de ambos os países monitoram os reflexos econômicos da medida. A expectativa de novos desdobramentos mantém em alerta mercados e empresas que dependem do fluxo transfronteiriço de mercadorias entre as duas nações norte-americanas.


