O governo federal lançou um plano de dez anos para ampliar o conhecimento do subsolo brasileiro e direcionar a busca por minerais críticos e estratégicos, com custo estimado em cerca de R$ 3,3 bilhões. O Plano Decenal de Geofísica, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME), vai orientar os levantamentos geofísicos realizados no país e definir quais regiões deverão receber prioridade nos próximos anos.
A proposta é concentrar os esforços inicialmente em áreas que já apresentam indícios ou histórico de ocorrência mineral, aprofundando o conhecimento sobre regiões consideradas mais promissoras. Entre os principais focos definidos pelo planejamento estão a Província Borborema, o Arco Magmático de Goiás, o Alto Paranaíba e o Quadrilátero Ferrífero. A iniciativa também passará por consulta pública para que empresas e associações possam sugerir ajustes nas prioridades.
Segundo o SGB, Os dados geológicos, geofísicos e geoquímicos produzidos ajudam as empresas a decidir onde vale a pena concentrar recursos antes de avançar para etapas mais caras, como campanhas de sondagem. O próprio órgão classifica esse conjunto como dado pré-competitivo para atrair capital privado.
Frentes de atuação prioritárias
O planejamento foi dividido em diferentes frentes de levantamento para abranger variados tipos de terreno. No embasamento cristalino, onde estão algumas das principais áreas de interesse mineral do país, estão previstos 61 projetos, com custo estimado em cerca de R$ 1,5 bilhão ao longo de dez anos por meio de técnicas como magnetometria aerotransportada.
Outra frente será direcionada a províncias minerais específicas, onde já existe maior conhecimento geológico e histórico consolidado de mineração. Estão nesse grupo regiões como Alto Paranaíba e Quadrilátero Ferrífero, com custo estimado de aproximadamente R$ 620 milhões em dez anos e aplicação de métodos detalhados de gravimetria e gradiometria.
As bacias sedimentares aparecem atualmente com menor prioridade relativa e concentram 67 projetos previstos, com investimento de aproximadamente R$ 1,2 bilhão no período. Os levantamentos nessas regiões podem contribuir para a identificação de áreas de interesse para petróleo, gás natural, hidrogênio, urânio e fosfato.
A ordem de execução, no entanto, pode mudar caso outras instituições ajudem a financiar os trabalhos. O SGB informou que já mantém tratativas com a Petrobras e com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre possíveis parcerias voltadas a bacias sedimentares, além de abrir espaço para o capital privado.
Metas para o subsolo nacional
Atualmente, cerca de 28% do território brasileiro possui mapeamento geológico na escala 1:100.000, considerada ideal para orientar trabalhos mais detalhados de pesquisa. O percentual, porém, é desigual e inclui grandes extensões de bacias sedimentares que possuem menor interesse imediato para a mineração comercial.
A iniciativa busca ampliar a oferta de dados públicos, reduzir o risco exploratório e dar maior previsibilidade aos investimentos em pesquisa mineral.”
Serviço Geológico do Brasil
Nas regiões classificadas como de alto potencial mineral, a cobertura geológica chega a cerca de 52%. A meta apresentada pelo SGB é elevar esse índice para 75% nos próximos quatro anos, período para o qual a estimativa é de aproximadamente R$ 1,26 bilhão para ampliar conjuntamente o mapeamento geológico, os levantamentos geofísicos e a geoquímica.
A ampliação dos levantamentos ganhou impulso após o MME apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o baixo nível de cobertura geológica do território brasileiro. Lula pediu que o tema fosse tratado como prioridade estratégica, enquanto o ministro Alexandre Silveira apontou previsão orçamentária robusta para o SGB.
O plano também poderá contar com recursos da recém-sancionada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação obriga empresas do setor a destinar parte da receita operacional bruta a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, abrindo espaço para financiamento adicional do subsolo.
Ferramentas de pesquisa geológica
A geofísica atua como uma das primeiras ferramentas para entender o que existe abaixo da superfície sem a necessidade de perfurar todo o território. Na aerogeofísica, aeronaves com sensores medem propriedades físicas das rochas, como variações do campo magnético, da gravidade e da radioatividade natural.
Os dados coletados permitem identificar anomalias, que são regiões com comportamento diferente do entorno e que podem indicar estruturas geológicas associadas a minerais. O SGB destaca que uma anomalia não representa automaticamente uma jazida, servindo para selecionar os pontos promissores que exigem estudos avançados.
A geoquímica funciona de forma complementar por meio da análise laboratorial de amostras de solos, sedimentos e rochas. A estratégia de combinar essas informações em regiões com evidências prévias de potencial mineral é amplamente utilizada por países com programas geológicos avançados.
A nova política regulatória e os investimentos previstos buscam posicionar o país de forma competitiva na corrida global por minerais críticos, essenciais para a transição energética e para a indústria tecnológica nas próximas décadas.
Fontes de financiamento externo
A nova política de minerais críticos institui obrigações de investimento em inovação que podem beneficiar diretamente os levantamentos geológicos. As companhias do setor deverão destinar percentuais de sua receita operacional bruta a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Parte desses recursos poderá ser aplicada diretamente pelas empresas ou direcionada por meio de parcerias estratégicas previstas na legislação. A regulamentação abre caminho para que o capital privado ajude a custear etapas fundamentais do mapeamento nacional.
Com isso, o governo tenta mitigar gargalos históricos de orçamento público e acelerar a consolidação de dados estratégicos. A integração entre fundos setoriais e o planejamento decenal do SGB é vista como pilar central para atrair capital estrangeiro e nacional.


