Unicamp cria técnica para multiplicar folículos e facilitar transplante capilar

Pesquisa utiliza nanotecnologia para expandir fios em laboratório a partir de pequena amostra, ampliando acesso para calvície severa e câncer

Da
Redação
A Redação do Jornal Maior reúne a produção jornalística do portal, com cobertura dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
5 min leitura
Pesquisadores da Unicamp desenvolveram nova técnica para multiplicar folículos capilares em laboratório.
Ouvir notícia
00:00 / 00:00

O transplante capilar convencional enfrenta barreiras significativas para pacientes que apresentam calvície severa, alopecia avançada ou que perderam fios devido a queimaduras e tratamentos oncológicos. Essa limitação ocorre porque a técnica tradicional depende criticamente de uma área doadora densa e saudável na nuca ou nas laterais da cabeça. Para contornar esse obstáculo, cientistas brasileiros desenvolveram uma abordagem inovadora baseada na expansão celular in vitro.

O método foi desenvolvido no Instituto de Biologia e na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. A técnica consiste em utilizar uma pequena amostra de unidades do próprio indivíduo, variando entre 50 e 120 folículos, para produzir um volume muito maior de material viável para o procedimento cirúrgico.

Redução no tempo cirúrgico

Durante o transplante no modelo tradicional, os profissionais retiram manualmente os folículos da área doadora um a um, em um processo exaustivo que pode durar de oito a dez horas. Com o novo protocolo em desenvolvimento, o cirurgião receberá os folículos já expandidos e previamente selecionados pelo laboratório.

Essa inovação logística pode reduzir o tempo da cirurgia para cerca de duas horas. A queda na duração do procedimento tende a aumentar a precisão médica, uma vez que o cansaço acumulado da equipe durante cirurgias longas é considerado um fator determinante para a redução na taxa de sucesso dos enxertos.

Os benefícios do método também alcançam o período pós-operatório. Como os fios passam por uma rigorosa seleção de qualidade antes da implantação, os folículos mais resistentes são priorizados, o que ajuda a diminuir o processo inflamatório e acelera de forma expressiva a recuperação do paciente.

Alternativa para pacientes oncológicos

A tecnologia em desenvolvimento foca em levar o tratamento para pessoas que sofreram perdas capilares severas em decorrência de sessões de quimioterapia ou graves queimaduras. Antes do início dos tratamentos oncológicos, o protocolo prevê a coleta e o armazenamento de folículos do próprio paciente utilizando criopreservação.

Por meio desse armazenamento em freezers específicos ou nitrogênio líquido, o material biológico poderá ser descongelado e multiplicado no futuro para recompor os fios perdidos. A perspectiva traz esperança e suporte psicológico para quem enfrenta diagnósticos difíceis e tratamentos agressivos ao longo da vida.

Para quem enfrenta um tratamento difícil como o de câncer, saber que poderá recuperar o cabelo lá na frente pode trazer um alívio enorme para enfrentar a doença.”

Wagner Fávaro, professor do IB da Unicamp

Essa frente de atuação médica busca minimizar os impactos estéticos e emocionais associados às doenças graves. A Unicamp destaca que a medicina regenerativa cumpre um papel fundamental ao devolver qualidade de vida e autoestima aos pacientes após a superação de quadros clínicos complexos.

Como a tecnologia funciona

O processo tecnológico envolve o uso integrado de nanotecnologia, cultura celular e medicina regenerativa avançada. Para iniciar a multiplicação, os folículos coletados do paciente passam por um processo de desmontagem laboratorial com o uso de reagentes químicos específicos.

Essa etapa libera tipos celulares distintos e fundamentais, como queratinócitos, células-tronco e células mesenquimais. Em seguida, essas estruturas são cultivadas até se multiplicarem e transferidas para placas especiais que formam organoides, recriando laboratorialmente a microestrutura necessária para o crescimento dos fios.

O maior desafio superado pelos pesquisadores consiste em garantir que os folículos criados artificialmente preservem rigorosamente a cor, a textura e a curvatura originais do paciente. O uso exclusivo de células do próprio indivíduo assegura essa compatibilidade, embora os testes definitivos ainda estejam em fase de conclusão.

Próximos passos e testes

Atualmente, a pesquisa científica encontra-se na fase de caracterização e estudos in vitro, com previsão de cerca de 18 meses para o encerramento completo da etapa pré-clínica, que engloba experimentos controlados em animais. Somente após a validação regulatória internacional o método poderá ser testado em seres humanos.

Após a realização dos transplantes nos testes clínicos, os pacientes passarão por um acompanhamento médico contínuo de 24 meses, com avaliações mensais obrigatórias. O objetivo final da universidade é transferir a tecnologia para o setor médico e transformar o Brasil em um polo exportador dessa solução inovadora.

A pesquisa reforça o papel de destaque da ciência nacional no desenvolvimento de terapias celulares de alto impacto global. A consolidação do método abre um horizonte inédito para a medicina estética reconstrutiva e para o tratamento de alopecias severas em escala comercial.

WhatsAppFacebook
Share This Article