Pisa 2025: China lidera ranking global e acende debate sobre celulares; entenda

Avaliação internacional da OCDE coloca províncias asiáticas no topo e reabre discussão sobre o uso de dispositivos nas escolas.

Da
Redação
A Redação do Jornal Maior reúne a produção jornalística do portal, com cobertura dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
8 min leitura
Estudantes em sala de aula durante avaliação educacional.
Ouvir notícia
00:00 / 00:00

A divulgação dos resultados do Pisa 2025 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) colocou em evidência o desempenho de excelência das regiões chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang. O exame internacional avaliou estudantes em dezenas de países e economias, revelando marcas expressivas no topo dos rankings globais. As províncias alcançaram pontuações elevadas em Matemática e Ciências, enquanto mantiveram posições de destaque na categoria de Leitura, ficando atrás apenas de Singapura.

O levantamento internacional também trouxe dados detalhados sobre o ambiente escolar e a presença de tecnologia nas salas de aula. Entre os estudantes das regiões chinesas avaliadas, 83% não têm acesso a celulares durante as atividades escolares, uma proporção bem superior à média registrada entre os países membros da OCDE. Além disso, uma parcela reduzida de alunos chineses relatou distração com dispositivos digitais nas aulas de Ciências, gerando discussões imediatas sobre os fatores que influenciam o sucesso escolar.

A apuração demonstra que a relação entre a proibição de aparelhos e o desempenho acadêmico é cercada de nuances. A própria OCDE avisa que a correlação entre proibir o celular e obter notas melhores é incerta, pois alunos de sistemas com essas regras frequentemente apresentam notas semelhantes ou inferiores aos colegas sem restrição. No Brasil, onde uma lei específica já restringe o uso de celulares nas escolas, especialistas apontam que a medida isolada não resolve os desafios educacionais se não houver alinhamento com as famílias e a comunidade escolar.

Recorte regional e contexto

Especialistas em políticas educacionais ponderam que os números expressivos da China refletem uma parcela específica e altamente desenvolvida do país asiático. Para Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, a baixa incidência de celulares nas escolas chinesas funciona mais como um sintoma do que como a causa exclusiva do sucesso acadêmico. A especialista lembra que os aparelhos costumam ficar de fora em residências que já contam com mais livros, conversas frequentes e acompanhamento constante da vida escolar.

A especialista ressalta ainda que nenhum resultado de avaliação internacional nasce de uma medida única ou isolada. O que aparece nas províncias chinesas é o reflexo combinado de políticas públicas estruturadas, fatores socioeconômicos consolidados e especificidades culturais daquela parcela do território. A distância para a realidade brasileira permanece acentuada, visto que o Brasil registrou índices baixos de proficiência e viu grande parte de seus estudantes ficarem abaixo do patamar básico estabelecido pela avaliação em Matemática.

A análise comparativa reforça que aplicar fórmulas estrangeiras exige cautela diante das desigualdades estruturais locais. Gabriel Serpa, diretor de inovação de uma rede de ensino, aponta que a discussão sobre tecnologia não se resume ao ambiente escolar. Avaliações de rede realizadas mostram que a expectativa de respostas rápidas e a dependência digital continuam impactando o sono, o tempo e a capacidade de concentração dos jovens fora dos muros da escola, exigindo uma abordagem pedagógica ampla.

Desafios da tecnologia moderna

A relação dos estudantes com os dispositivos eletrônicos estende-se para além do horário letivo e afeta diretamente o desenvolvimento cognitivo. Segundo Gabriel Serpa, o uso constante de telas gera uma dinâmica de conexão permanente que dificulta o desligamento e prejudica o foco nas atividades cotidianas. O executivo destaca que o desafio atual não consiste apenas em determinar a quantidade aceitável de tecnologia, mas em ensinar os alunos a utilizarem as ferramentas digitais de maneira produtiva, crítica e verdadeiramente responsável.

A regulamentação do uso de celulares nas instituições de ensino representa apenas o primeiro passo de um processo complexo. Especialistas defendem que a proibição precisa vir acompanhada de planejamento pedagógico consistente, capacitação adequada para os professores e diretrizes claras para o manuseio de equipamentos eletrônicos. Sem essas frentes integradas, a simples restrição física dos aparelhos perde eficácia diante da pressão exercida pelo ambiente digital contemporâneo.

A reflexão sobre inovação na educação passa também por compreender que o acesso a hardwares e softwares não garante, por si só, melhoria no aprendizado. O avanço tecnológico precisa estar atrelado a um projeto pedagógico sólido que valorize o pensamento crítico e a resolução de problemas reais, evitando que a digitalização ocorra de forma superficial ou desconectada das necessidades diárias dos estudantes em sala de aula.

Lições para o sistema brasileiro

Diante do cenário revelado pelo Pisa 2025, o sistema educacional brasileiro busca referências práticas que possam ser adaptadas à realidade nacional. Uma das principais sugestões apontadas por analistas educacionais envolve a reformulação curricular com foco em profundidade em vez de extensão. Em vez de acelerar a cobertura de um volume excessivo de conteúdos, as escolas poderiam priorizar os conceitos essenciais, garantindo que os alunos compreendam e saibam aplicar o conhecimento adquirido no cotidiano.

A experiência internacional também evidencia a importância de envolver ativamente as famílias no processo de acompanhamento escolar. Bárbara Born destaca que a restrição de aparelhos perde força quando os próprios pais fornecem acesso ilimitado aos dispositivos no ambiente doméstico. O alinhamento entre diretrizes institucionais e o cotidiano familiar configura-se como um elemento determinante para que as regras de convivência digital surtam efeito duradouro no rendimento dos alunos.

A expansão de práticas bem-sucedidas exige investimentos contínuos e políticas públicas capazes de reduzir as disparidades entre as redes de ensino. Enquanto o debate sobre o papel dos celulares continua mobilizando gestores e educadores, o foco prioritário permanece na melhoria da qualidade do ensino e na garantia de que os estudantes alcancem patamares adequados de proficiência nas competências fundamentais avaliadas globalmente em todo o mundo.

Analistas avaliam impactos futuros

A consolidação de diretrizes mais rígidas sobre o uso de eletrônicos nas escolas abre espaço para um monitoramento rigoroso dos impactos dessas medidas ao longo dos próximos anos letivos. Especialistas em políticas públicas acompanham de perto se as restrições legais adotadas em diferentes países resultarão em ganhos efetivos de concentração e desempenho acadêmico, ou se exigirão ajustes adicionais nas estratégias pedagógicas implementadas pelas redes de ensino.

A discussão sobre a modernização do ensino médio e fundamental também ganha impulso com a divulgação dos dados internacionais. Governos estaduais e municipais avaliam a necessidade de revisar materiais didáticos e metodologias de ensino para alinhar o sistema brasileiro às exigências globais de competência em matemática, ciências e leitura, pilares fundamentais medidos periodicamente pela OCDE.

O desdobramento dessas avaliações reforça que o aprimoramento da educação pública e privada depende de um conjunto multifacetado de ações, que vão desde a valorização da carreira docente até o suporte socioemocional aos estudantes. O desafio central permanece em transformar dados estatísticos internacionais em políticas práticas capazes de assegurar um futuro educacional mais competitivo e igualitário para os jovens brasileiros.

WhatsAppFacebook
Share This Article