O arquivamento pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal do procedimento interno que avaliava a conduta do procurador-geral da República, Paulo Gonet, no âmbito do caso Master, foi interpretado por colegas e aliados como uma sobrevida à sua gestão. Embora o colegiado tenha rejeitado a abertura de investigação criminal e mantido Gonet na condução das apurações por maioria apertada de 5 a 4 no quesito da investigação, aliados e críticos ponderam que a desconfiança institucional e o desgaste persistem entre membros da carreira.
A sessão extraordinária realizada em 25 de setembro de 2026 analisou representações decorrentes do caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Durante a votação, o plenário do CSMPF decidiu por unanimidade que o órgão não tem competência legal para afastar o procurador-geral da condução de processos no Supremo Tribunal Federal, julgando prejudicados os pedidos de afastamento de Gonet.
Por 5 votos a 4, o colegiado rejeitou a abertura de investigação criminal ou apuração preliminar contra Paulo Gonet, acompanhando o voto do relator, subprocurador-geral Francisco Sanseverino. Votaram contra a abertura de investigação os conselheiros Francisco Sanseverino, Celso de Albuquerque Silva, Alexandre Camanho de Assis, Hindemburgo Chateaubriand Filho e Nicolao Dino, enquanto votaram a favor de diligências os conselheiros Janice Ascari, Samantha Chantal Dobrowolski, José Adonis Callou de Araújo Sá e Ana Borges Coelho Santos.
Placar apertado divide colegiado
O resultado de 5 a 4 surpreendeu parte da cúpula da instituição e evidenciou uma divisão clara entre os subprocuradores. Enquanto a ala próxima ao procurador-geral avalia que a decisão encerra o assunto de forma definitiva, críticos sustentam que o placar apertado demonstra um sinal de alerta para a administração superior.
Integrantes da carreira que defenderam a apuração dos fatos afirmam que a desconfiança interna dificilmente será dissipada com rapidez. Além disso, aliados admitem que o episódio pode gerar constrangimento durante as próximas sessões ordinárias do Conselho Superior do MPF ao longo dos próximos meses.
O procedimento interno teve origem após relatórios e mensagens extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro citarem o nome de Paulo Gonet. A situação ganhou repercussão adicional após a revelação de uma fotografia em que Gonet aparece ao lado de Vorcaro e do advogado Ciro Soares, que atuou na interlocução entre ambos, durante um encontro em Londres.
Desgaste institucional atinge cúpula
O impacto das revelações atingiu o nível mais alto da carreira ministerial, gerando desconforto inclusive entre subprocuradores que tradicionalmente mantinham alinhamento com a gestão. A percepção de parte dos membros é de que a imagem de imparcialidade exigida pelo cargo sofreu abalos consideráveis.
Críticos da administração argumentam que o desgaste acumulado reduz a margem de manobra política de Gonet dentro da própria instituição. A exposição pública de conversas e registros fotográficos alterou o clima corporativo na sede da Procuradoria-Geral da República.
Por outro lado, defensores do procurador-geral ressaltam que ele mantém sustentação suficiente para concluir seu mandato até o final do próximo ano. Para esse grupo, o desfecho no colegiado assegura a estabilidade jurídica e administrativa necessária para a continuidade dos trabalhos.
Estratégia de preservação adotada
Diante do cenário de atrito e do escrutínio público, avalia-se internamente que o chefe do Ministério Público Federal adotará uma postura de maior cautela nos desdobramentos futuros. A intenção seria evitar novas exposições desnecessárias que possam realimentar crises corporativas.
Uma das alternativas ventiladas por assessores e aliados é a divisão mais ampla das atribuições relativas ao caso Master. Dessa forma, Gonet tenderia a compartilhar a condução de diligências sensíveis com outros subprocuradores designados para o caso, diluindo o foco de eventuais críticas.
Apesar da sobrevida assegurada pelo voto do conselho, a administração da PGR precisará lidar com o desafio de reconstruir pontes com o colegiado. A coesão interna permaneceu fragilizada pelos desdobramentos recentes das investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Gestão segue até o fim
O procurador-geral não sai fortalecido do episódio, mas segue vivo para concluir a gestão.”
A oposição interna, contudo, promete manter vigilância rigorosa sobre os atos da gestão e a condução dos processos em curso. A relação entre a chefia e os membros do Conselho Superior continuará sob observação atenta dos operadores jurídicos.
O desfecho do caso no CSMPF encerra a fase de apuração interna no âmbito administrativo, mas deixa um legado de debates sobre os limites éticos e institucionais na relação entre autoridades públicas e investigados de grande projeção financeira.


