A indústria brasileira de trigo avalia que o país pode precisar importar até 10 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27. O volume inédito é impulsionado por perdas severas nas lavouras nacionais e coloca em dúvida a capacidade logística do país para receber e escoar toda a carga estrangeira.
Segundo estimativas da consultoria Safras e Mercado apresentadas durante o Encontro da Cadeia do Trigo de São Paulo, a produção interna deverá registrar uma retração de 31,7%. A queda acentuada reflete reduções tanto na área plantada quanto na produtividade por hectare.
Impacto nas lavouras e perdas
As lavouras de estados produtores fundamentais, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, sofreram impactos expressivos decorrentes de intempéries climáticas associadas ao fenômeno El Niño. Com o recuo, a colheita nacional deve cair de 8,12 milhões para 5,545 milhões de toneladas no novo ciclo.
Diante desse cenário de quebra generalizada, a projeção oficial aponta uma necessidade de importação de 9,3 milhões de toneladas, embora avaliações de bastidores considerem o número conservador. A demanda total do país é estimada em 14,85 milhões de toneladas, somando moagem, ração, produção de etanol e exportações.
Caso as projeções mais elevadas se confirmem, o Brasil tem potencial para se consolidar como o terceiro maior importador mundial de trigo. O país ficaria atrás apenas de nações como Indonésia e Egito no ranking global de compras externas do cereal.
Desafios na infraestrutura portuária
O principal entrave apontado por especialistas do setor não será apenas encontrar o volume necessário no mercado internacional, mas viabilizar a descarga e o transporte interno. A Argentina surge como principal fornecedora para suprir a defasagem, caso mantenha os padrões de qualidade exigidos pelos moinhos brasileiros.
Apesar da proximidade geográfica com o país vizinho, a chegada massiva do cereal coincidirá com períodos de intensa disputa por infraestrutura portuária e escoamento agrícola. A sobrecarga logística afeta diretamente a ponta final da cadeia de suprimentos e preocupa operadores do setor.
Analistas destacam que a distribuição interna dos volumes traz desafios adicionais devido às longas distâncias até os principais moinhos. Além disso, restrições comerciais de origens específicas, como o trigo russo, limitam o leque de alternativas para o abastecimento nacional.
Muito provavelmente a gente vai ver o Brasil necessitando de 10 milhões de toneladas que a Argentina poderia suprir, se tiver qualidade. Como que a gente descarrega 10 milhões de toneladas?
Maurício Ghiraldelli, diretor de suprimentos da Viterra-Bunge
Previsões sem precedentes históricos
Representantes da cadeia produtiva afirmam que o mercado enfrenta um momento atípico e sem paralelos na história recente do agronegócio nacional. A sobrecarga simultânea de portos com a saída de insumos de safras de verão estreita ainda mais a janela operacional.
O volume recorde de cereal estrangeiro exigirá manobras logísticas complexas para evitar desabastecimento em praças consumidoras estratégicas. A apreensão atinge tanto grandes tradings quanto moinhos de pequeno e médio portes.
Além da dependência externa na safra atual, participantes do encontro expressaram preocupação com a disponibilidade de sementes para o ciclo agrícola seguinte. A escassez de insumos ameaça prolongar os reflexos negativos da crise climática para além do período atual.
Dependência e reflexos futuros
Eventuais perdas qualitativas na produção que escapar da quebra total podem desviar o cereal nacional para o mercado de ração ou exportação na forma de feed. Essa dinâmica restringe ainda mais o produto disponível para farinha e derivados destinados ao consumo interno.
Especialistas reforçam que a janela curta para recebimento e a concorrência por espaço nos armazéns exigem planejamento antecipado de toda a cadeia. O encarecimento do frete interno também entra no cálculo de viabilidade econômica para os moinhos.
A sucessão de adversidades climáticas consolida um período de transição difícil para a agricultura brasileira de inverno. O setor permanece em alerta para mitigar gargalos e buscar soluções integradas de logística e abastecimento nos próximos meses.


