O presidente da China, Xi Jinping, desembarcou nesta quarta-feira (23) em Washington para uma visita oficial aos Estados Unidos a convite de Donald Trump. O encontro bilateral aborda temas complexos como inteligência artificial e minerais críticos, mas reserva um espaço de destaque para o agronegócio e para o comércio de commodities agrícolas entre as duas maiores potências globais.
O que for decidido nesta semana tem o potencial de redesenhar rotas de exportação, mexer com os preços nas bolsas internacionais e redefinir a participação da produção brasileira no comércio da oleaginosa. A nova cúpula acontece quatro meses depois de os dois líderes se encontrarem em Pequim.
Aumentar as compras de grãos pode funcionar como ferramenta de barganha política para o governo chinês, que busca previsibilidade na relação econômica. Produtos agrícolas representam uma fatia expressiva das exportações para o mercado chinês, com faturamento bilionário antes do acirramento das tensões comerciais.
O avanço da soja americana
Há dez anos, a China comprava a soja brasileira e norte-americana em proporções praticamente iguais. A relação mudou durante o primeiro governo de Donald Trump, quando retaliações comerciais fizeram os chineses voltarem suas atenções para o mercado sul-americano.
Dados da Administração Geral de Alfândegas Chinesa mostram que, entre janeiro e agosto deste ano, as importações de soja dos Estados Unidos despencaram 34%. Em contrapartida, as vendas do Brasil cresceram 5% no mesmo período, alcançando 55,14 milhões de toneladas de grãos.
Apesar da queda recente, existe um compromisso formal da China de importar 25 milhões de toneladas de soja norte-americana por ano até 2028. Com o avanço da colheita nos Estados Unidos, os embarques tendem a ganhar força na reta final do ano.
Estratégias e barganha geopolítica
Analistas de mercado apontam que a China continua adquirindo o produto norte-americano mesmo pagando mais caro pelo grão. A movimentação é lida pelo setor como um sinal de que Pequim pretende cumprir o acordo de 25 milhões de toneladas.
Por que a China segue comprando mesmo pagando mais caro pelo grão? Porque a China vê isso como uma porta de acesso fácil, um gesto de boa-fé, para discutir outras questões políticas, bem como para barganhar posições no xadrez geopolítico global.
Especialistas ressaltam que uma eventual mudança tarifária que torne a soja dos Estados Unidos mais competitiva alteraria completamente o cenário competitivo internacional.
Reflexos para os preços
Especialistas em inteligência de mercado avaliam que uma negociação entre Washington e Pequim não representa uma substituição imediata da soja brasileira, mas pode alterar a distribuição das compras globais.
Essa redistribuição de fluxos comerciais tem capacidade direta de impactar as cotações internacionais e afetar os preços recebidos pelos produtores locais. O monitoramento constante das bolsas de mercadorias tornou-se essencial para o setor produtivo nacional.
Além disso, o governo chinês tem investido na sua própria produção interna de soja para tentar reduzir a dependência externa ao longo dos próximos anos.
Necessidade de diversificação
O presidente executivo da Abiove, André Nassar, aponta que um entendimento entre Estados Unidos e China que resulte no aumento das compras não favorece o Brasil. O cenário reforça a necessidade de ampliar a busca por novos mercados externos.
Enquanto concorrentes estrangeiros estimulam o consumo interno e a indústria de biocombustíveis para absorver a oferta excedente, o Brasil precisa gerar consumo e criar novos usos para a produção interna.
O avanço das tratativas comerciais também depende da eventual derrubada de sobretaxas herdadas de embates anteriores, mantendo o setor em estado de vigilância constante.


