A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal impacta de forma mais severa a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que a do senador Flávio Bolsonaro. É o que aponta o levantamento realizado pela AtlasIntel em parceria com a agência Bloomberg, divulgado nesta quarta-feira, que detalha a percepção do eleitorado brasileiro em meio às turbulências recentes na política nacional.
De acordo com os dados coletados, mais da metade dos entrevistados acredita que o atual mandatário é o principal prejudicado pelo imbróglio na Corte. Para 52,3% dos eleitores, a crise no STF prejudica mais Lula, enquanto apenas 20,7% consideram que o maior prejudicado é Flávio Bolsonaro. Outros 15,5% avaliam que ambos são igualmente afetados, 7,5% entendem que nenhum dos dois sai perdendo e quase 4% não souberam responder.
Impacto na campanha e desvantagem
Segundo o analista político Rafael Cortez, em entrevista ao programa Hora H, o governo tradicionalmente parte com vantagem na disputa pela reeleição em democracias por ter uma mensagem mais forte. Contudo, o especialista ressaltou que a crise do STF impediu que a opinião pública se concentrasse em assuntos mais favoráveis à campanha governista, dificultando a melhora de imagem do Executivo.
O especialista destacou que a agenda proveniente do Supremo é desfavorável para a tentativa de recondução ao cargo. A avaliação é de que o tema rouba o foco de entregas administrativas e suga o fôlego político que deveria ser direcionado para debates econômicos e sociais ao longo da corrida eleitoral.
Nesse contexto, Cortez mencionou que o Palácio do Planalto adotou a medida de reajustar o Bolsa Família, buscando não apenas o efeito concreto da política pública, mas também tentar resgatar uma pauta mais favorável à base aliada e à própria campanha.
Empate no caso Master
No que diz respeito ao escândalo do caso Master, os dados do levantamento apontam um cenário de divisão e empate técnico no julgamento da opinião pública. De acordo com a pesquisa, 43,8% dos eleitores atribuem o envolvimento no esquema aos aliados de Bolsonaro, enquanto 43,4% apontam os aliados de Lula como os responsáveis.
Os movimentos mais recentes por parte dos ministros não sugerem que eles, individualmente, queiram dar uma contribuição para a superação dessa tensão.”
Rafael Cortez, analista político
Outros 10,6% responsabilizam todos os lados pelo episódio, 1,5% indicam o Centrão e apenas 0,6% não souberam responder aos questionamentos. Para o analista político, mesmo com esse equilíbrio na percepção sobre quem estaria por trás do caso, o tema continua sendo um fator que não ajuda a estratégia de reeleição do Palácio do Planalto.
A proximidade numérica entre as acusações reflete a forte polarização política que domina o país, dificultando que qualquer um dos grupos envolvidos consiga capitalizar o episódio eleitoralmente sem sofrer desgaste proporcional.
Postergação e cenário institucional
Sobre a possibilidade de o STF adiar ao máximo suas sessões, incluindo o caso do ministro Alexandre de Moraes que pode ficar para o ano que vem, Cortez avaliou que a medida tenderia a reduzir o efeito negativo para o governo. A expectativa é que a perda de fôlego do tema permita que outros assuntos passem a dominar o debate público cotidiano.
No entanto, o analista alertou que, do ponto de vista institucional, o cenário ainda se mantém bastante complicado e sem sinais claros de distensionamento. Os movimentos recentes realizados por ministros da Corte não sugerem que eles queiram dar, individualmente, uma contribuição efetiva para a superação desta tensão política.
O especialista pontuou que a crise no Supremo apresenta indícios mais profundos relacionados a regras do jogo e a um compromisso ético entre os magistrados. Esse conjunto de fatores tem gerado uma crise de legitimidade expressiva do tribunal perante o eleitorado.
Desgaste e legitimidade
A pesquisa reforça que o desgaste institucional respinga diretamente nas expectativas eleitorais para os próximos anos. A avaliação de especialistas é de que a persistência de atritos entre os Poderes alimenta um ambiente de incerteza que afeta a governabilidade e a previsibilidade das políticas públicas.
O impacto político do Supremo na rotina dos candidatos evidencia como a estabilidade institucional se tornou um dos eixos centrais da disputa. A dependência de agendas positivas esbarra constantemente na imprevisibilidade das decisões judiciais e nas crises recorrentes.
Dessa forma, tanto a base governista quanto a oposição lidam com um cenário onde a opinião pública permanece altamente sensível aos escândalos e aos embates entre o Judiciário e a classe política.


