O ciclo global da água está se tornando mais irregular e difícil de prever, alternando com maior frequência entre períodos de escassez e excesso. O alerta consta do relatório State of Global Water Resources 2025, divulgado nesta quinta-feira (17) pela Organização Meteorológica Mundial, agência especializada das Nações Unidas. O documento reúne dados de rios, água subterrânea, neve, gelo, evapotranspiração e armazenamento de água em terra.
Segundo a OMM, 2025 esteve entre os anos mais secos para o fluxo dos rios em 35 anos de acompanhamento. O relatório também identifica uma redução persistente do armazenamento de água doce em continentes e ilhas ao longo da última década e perdas generalizadas de geleiras em todas as regiões pelo quarto ano consecutivo.
Rios fogem do padrão
Nos últimos sete anos, o planeta registrou a menor proporção de rios com vazão considerada normal desde 1991. Em 2025, mais de um terço das bacias monitoradas apresentou fluxo abaixo do esperado, enquanto outras áreas tiveram volumes excessivos, reforçando a característica de extremos simultâneos em regiões diferentes.
O quadro não é uniforme. Partes do Sul e do Sudeste da Ásia e do norte da América do Sul registraram vazões acima do normal. Em contraste, trechos da América do Norte, da bacia do Prata, do São Francisco, do leste europeu, do Oriente Médio e da Ásia Central tiveram condições abaixo ou muito abaixo da média.
Na África, os rios Nilo, Congo e Zambeze tiveram vazões muito inferiores ao padrão, enquanto sistemas como Senegal, Níger, Lago Chade, Orange e Limpopo apresentaram volumes maiores em determinadas áreas. Essa distribuição desigual aumenta os desafios para abastecimento, agricultura, navegação e geração de energia.
A OMM descreve um sistema hídrico cada vez menos estável, no qual falta e excesso de água podem ocorrer no mesmo ano em partes distintas do planeta.
Dados mostram extremos
| Indicador | Conclusão do relatório |
|---|---|
| Vazão dos rios em 2025 | Entre as mais secas em 35 anos |
| Fluxos anormais | Persistem há 7 anos |
| Água armazenada em terra | Queda na última década |
| Geleiras | Perdas generalizadas pelo 4º ano seguido |
| Regiões mais atingidas por desastres hídricos | Ásia e África |
Fonte: OMM.
O armazenamento terrestre inclui água subterrânea, lagos, reservatórios, umidade do solo, neve e gelo. A redução contínua desse estoque preocupa porque muitos desses componentes funcionam como reservas usadas para atravessar anos mais secos.
A OMM compara essas reservas a uma espécie de poupança hídrica. Quando a perda se prolonga, a capacidade de resposta a secas futuras diminui, elevando riscos para cidades, produção de alimentos, indústria e ecossistemas.
Geleiras seguem perdendo massa
As geleiras apresentaram perdas em todas as regiões monitoradas pelo quarto ano consecutivo. Esse processo reduz reservas naturais que alimentam rios durante períodos secos e afeta populações que dependem do degelo sazonal para consumo, irrigação e geração hidrelétrica.
O efeito não é imediato em todos os lugares. Em algumas bacias, o derretimento acelerado pode inicialmente aumentar a vazão. Com a redução progressiva do volume de gelo, porém, o aporte tende a diminuir, especialmente em meses de pouca chuva.
O relatório destaca ainda que a variabilidade do ciclo da água é influenciada por mudanças climáticas, padrões naturais de circulação atmosférica e oceânica e condições regionais. Em 2025, fatores como La Niña fraca e alterações no Dipolo do Oceano Índico influenciaram a distribuição das chuvas.
Monitoramento precisa avançar
A OMM afirma que a disponibilidade de dados melhorou desde o lançamento da primeira edição do relatório. A publicação de 2025 reuniu informações de 68 países e mais de 3 mil estações, número muito superior ao disponível no início da série.
Ainda assim, persistem lacunas justamente em regiões mais vulneráveis a secas e enchentes. A organização defende maior compartilhamento de dados, expansão das redes hidrológicas e uso de sistemas de alerta para permitir respostas mais rápidas.
Para governos, o desafio é adaptar infraestrutura, agricultura e planejamento urbano a uma realidade em que padrões históricos de chuva e vazão se tornam menos confiáveis. A OMM sustenta que decisões sobre água precisam considerar tanto os extremos imediatos quanto a perda lenta de reservas acumuladas ao longo de anos.


