O senador republicano Bill Cassidy responsabilizou, nesta quarta-feira (16), a abordagem adotada pelo governo de Donald Trump em relação aos imunizantes pelas recentes mortes por sarampo na Pensilvânia. A declaração foi feita durante uma audiência no Comitê de Saúde do Senado dos Estados Unidos, momento em que o parlamentar pressionou a indicada para o cargo de cirurgiã-geral, Nicole Saphier, a defender a segurança das vacinas e a desvincular publicamente a imunização infantil de diagnósticos de autismo.
O país enfrenta atualmente o pior surto da doença em mais de 35 anos, impulsionado por debates e alterações nas diretrizes de saúde pública promovidas pela gestão federal. Cassidy, que é médico de formação e preside o comitê, afirmou durante a sessão que três pessoas morreram na Pensilvânia em decorrência do sarampo, enquanto um quarto caso permanece sob investigação técnica pelas autoridades competentes do setor.
A comissão avalia atualmente diversas indicações para cargos de destaque na área da saúde pública, incluindo nomes para o secretariado adjunto e para órgãos de combate ao abuso de substâncias. Durante os debates, parlamentares questionaram os indicados sobre a condução de políticas científicas e a necessidade de priorizar evidências médicas em detrimento de diretrizes políticas ou ideológicas dentro da administração federal.
Senador cobra clareza sobre vacinas e autismo
Cassidy dirigiu sua advertência mais contundente à indicada Nicole Saphier, pressionando-a repetidamente para que afirmasse com clareza que a vacina tríplice viral não causa autismo. A candidata a cirurgiã-geral inicialmente hesitou, afirmando que não havia visto evidências confiáveis que sustentassem tal relação, o que gerou críticas imediatas do presidente do comitê sobre a ambiguidade da resposta.
O senador alertou que termos vagos já foram utilizados no passado por outros agentes públicos para abrir margem a narrativas contrárias à ciência. Após a pressão exercida na sessão, Saphier acabou declarando categoricamente que não acredita que as vacinas infantis causem autismo e classificou a imunização como a principal ferramenta para combater o surto da doença.
A controvérsia ocorre em meio à postura do secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., que historicamente promoveu teses já desmentidas sobre os imunizantes. A atuação da liderança da pasta tem gerado atritos com parlamentares que defendem a manutenção rigorosa das recomendações científicas tradicionais para a proteção da saúde infantil no país.
Republicano endurece tom contra a gestão federal
Bill Cassidy tem se tornado abertamente crítico em relação aos esforços governamentais para reformular o calendário e a política de vacinação. O parlamentar não concorre à reeleição após perder as primárias republicanas, o que lhe conferiu maior liberdade política para adotar uma postura desafiadora frente às diretrizes impostas pelo Palácio da Casa Branca em temas sensíveis de saúde.
Durante os questionamentos, o senador destacou que a falta de diretrizes firmes e a lentidão na definição de protocolos pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças representam um legado preocupante para a administração atual. Ele enfatizou que imunizantes recomendados desde o nascimento continuam sendo seguros e fundamentais para evitar mortes evitáveis em território norte-americano.
Os indicados presentes na audiência também responderam a questionamentos de outros senadores sobre o cumprimento estrito da legislação vigente em caso de eventuais conflitos com ordens executivas do governo. A sabatina evidenciou as divergências profundas entre legisladores e o Executivo na condução das políticas sanitárias e na gestão de órgãos federais estratégicos.
Órgãos federais enfrentam vácuo de liderança
A sabatina no Senado ocorre em um cenário de lacunas prolongadas na administração de agências reguladoras e de saúde pública nos Estados Unidos. O cargo de cirurgião-geral permanece sem titular efetivo desde janeiro, refletindo os impasses nas escolhas enviadas pelo Executivo ao Congresso ao longo dos últimos meses para preencher vagas cruciais na estrutura governamental.
Enquanto cargos de liderança definitiva continuam vagos ou em análise nas comissões legislativas, autoridades interinas assumem a condução operacional de departamentos federais de saúde. A situação gera apreensão entre especialistas e legisladores preocupados com a capacidade de resposta institucional a emergências sanitárias e surtos epidemiológicos de grande proporção.
A tramitação das indicações segue mobilizando parlamentares de diferentes correntes partidárias, que buscam obter garantias de autonomia técnica dos futuros dirigentes. A expectativa é de que o Senado intensifique o escrutínio sobre os nomes propostos para evitar novos impasses na formulação de políticas essenciais para a população do país.


