A Rappi pretende se afastar da disputa baseada principalmente em cupons, descontos e taxas para restaurantes e concentrar sua expansão no Brasil em entregas ultrarrápidas de produtos. A estratégia foi detalhada pelo CEO da empresa no país, Guillermo Formigoni, que aposta no chamado quick commerce para permitir que consumidores recebam de alimentos básicos a eletrônicos em poucos minutos.
Em entrevista ao programa C-Level, da Folha de S.Paulo, Formigoni afirmou que a visão da companhia é tornar o aplicativo uma plataforma capaz de entregar praticamente qualquer produto. O foco está especialmente no Rappi Turbo, operação baseada em centros próprios de distribuição posicionados próximos dos consumidores.
Segundo o executivo, restaurantes representam cerca de 10% do negócio da plataforma. Os demais 90% estariam relacionados a supermercados, farmácias, produtos para animais de estimação e outras categorias. O movimento coloca a Rappi em uma disputa que ultrapassa o delivery de refeições e alcança diretamente o varejo.
Rappi prioriza entrega rápida
O principal diferencial buscado pela empresa é o tempo entre o pedido e a chegada do produto. No Rappi Turbo, a proposta é entregar compras em aproximadamente dez minutos em áreas atendidas pela estrutura logística da companhia.
O catálogo disponível já inclui frutas, verduras, carnes, bebidas, produtos de higiene, itens para animais, artigos domésticos e tecnologia. A expectativa apresentada por Formigoni é ampliar essa variedade para que produtos de maior valor, como computadores e videogames, também possam fazer parte desse modelo de entrega rápida.
A plataforma da Rappi confirma que unidades do Turbo oferecem dezenas de categorias. Em algumas regiões da Grande São Paulo, a previsão exibida ao consumidor fica entre dez e 13 minutos, embora o prazo varie conforme localização, horário e disponibilidade operacional.
Nossa proposta de valor é um serviço de varejo em que você possa comprar quase qualquer coisa no supermercado para ser entregue em 10 minutos.
Guillermo Formigoni, CEO da Rappi no Brasil
Dark stores sustentam operação
Para conseguir reduzir o tempo das entregas, a Rappi utiliza as chamadas dark stores. Esses espaços funcionam como pequenos centros de distribuição fechados ao público, nos quais os produtos são armazenados e separados especificamente para pedidos feitos pelo aplicativo.
De acordo com Formigoni, a empresa possui 21 dessas unidades na cidade de São Paulo e outras 19 distribuídas por cidades como Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Cada unidade trabalha com aproximadamente 5 mil produtos diferentes, número inferior ao sortimento de um supermercado convencional. Essa seleção mais limitada permite organizar estoques e acelerar a separação dos pedidos. Segundo o executivo, os funcionários têm cerca de dois minutos e meio para preparar cada compra.
A aposta da Rappi é substituir parte da vantagem criada por cupons e descontos por conveniência, variedade e velocidade de entrega.
Tecnologia recebe maior investimento
A empresa prevê investir R$ 1,4 bilhão no Brasil ao longo de cinco anos, segundo Formigoni. O executivo afirmou que a maior parte dos recursos deve ser direcionada para tecnologia, inovação e melhoria da experiência do consumidor.
A estratégia contrasta com uma disputa que ganhou intensidade no mercado brasileiro de delivery. A volta da 99Food e a entrada da chinesa Keeta aumentaram a competição com o iFood e levaram as plataformas a oferecer incentivos para atrair consumidores e estabelecimentos.
Formigoni afirmou que a Rappi pretende evitar uma competição centrada apenas em descontos. Isso não significa que a plataforma tenha abandonado promoções ou benefícios comerciais, mas o executivo sustenta que esses mecanismos não serão o principal eixo dos investimentos.
A empresa também mantém serviços para restaurantes, mas a direção atual considera que a oportunidade de expansão é maior no comércio eletrônico de produtos de uso cotidiano.
Varejo amplia disputa entre apps
Os números apresentados pelo CEO ajudam a explicar a mudança de foco. Segundo Formigoni, o mercado de entrega de comida por aplicativos movimenta cerca de US$ 210 bilhões na América Latina, enquanto o varejo alimentar alcança aproximadamente US$ 500 bilhões.
O executivo estima que o Brasil represente cerca de 60% do valor movimentado pelo varejo alimentar na região. Apesar do tamanho do mercado, ele afirma que apenas 15% dos brasileiros atualmente fazem compras de supermercado por comércio eletrônico.
Além disso, entre 4% e 5% do faturamento do varejo alimentar seria gerado por vendas digitais. Para a Rappi, essa diferença entre o tamanho do mercado tradicional e a participação ainda reduzida do comércio eletrônico representa espaço para crescimento.
| Estratégia do Rappi Turbo no Brasil | |
|---|---|
| Indicador | Informação |
| Investimento previsto | R$ 1,4 bilhão em cinco anos |
| Dark stores em São Paulo | 21 unidades |
| Dark stores em outras cidades | 19 unidades |
| Produtos por unidade | Cerca de 5 mil |
| Participação de restaurantes no negócio | Cerca de 10%, segundo a empresa |
| Demais categorias | Cerca de 90%, segundo a empresa |
Fonte: Rappi e entrevista de Guillermo Formigoni ao C-Level, da Folha de S.Paulo.
Empresa mira modelo marketplace
A expansão poderá levar o Rappi Turbo além de estoques administrados diretamente pela plataforma. Formigoni afirmou que a empresa analisa um modelo de marketplace, no qual produtos de diferentes vendedores poderiam ser integrados à experiência de compras rápidas.
A Rappi já mantém parcerias que ampliam o catálogo disponível. O objetivo é permitir que o usuário utilize o mesmo aplicativo para resolver diferentes necessidades, reduzindo a separação tradicional entre delivery de refeições, supermercado, farmácia e comércio eletrônico.
Com isso, a concorrência da companhia deixa de ser formada apenas por aplicativos como iFood, 99Food e Keeta. Dependendo da categoria procurada pelo consumidor, a plataforma passa também a disputar atenção com supermercados, farmácias, marketplaces e grandes empresas do comércio eletrônico.
Formigoni afirma que a companhia cresce em ritmo de dois dígitos altos e vê espaço para avançar mesmo diante do cenário de juros elevados no Brasil. A Rappi está presente no país desde 2017 e opera também em outros mercados da América Latina.
Entregadores entram na estratégia
A operação ultrarrápida depende ainda da disponibilidade de entregadores perto das dark stores. Segundo Formigoni, a companhia considera esses profissionais como outro grupo que precisa ser atraído para sua plataforma, em um mercado no qual diferentes aplicativos disputam a mesma mão de obra.
As próprias unidades logísticas funcionam como pontos de apoio aos entregadores. A lógica é reduzir distâncias, acelerar a retirada dos produtos e evitar que o prazo curto dependa exclusivamente da velocidade de deslocamento nas ruas.
O CEO também defendeu mudanças na regulamentação do trabalho realizado por aplicativos, embora tenha afirmado que ainda não exista um modelo considerado ideal pela companhia. A discussão envolve temas como flexibilidade da jornada, previdência e proteção contra acidentes.
Enquanto essas questões continuam sendo debatidas, a Rappi pretende acelerar sua transformação em uma plataforma de varejo imediato. Para Formigoni, a próxima etapa será fazer com que itens tradicionalmente associados ao comércio eletrônico convencional, incluindo computadores e videogames, possam chegar à casa do consumidor em poucos minutos.


