A menopausa em idade mais precoce foi associada a uma trajetória menos favorável de envelhecimento cerebral em estudo que acompanhou 2.603 mulheres por até 18 anos. A pesquisa identificou relações entre a idade da transição reprodutiva, alterações vistas em ressonâncias magnéticas e o ritmo de declínio cognitivo.
Os resultados foram publicados em agosto na JAMA Network Open. Por ser observacional, o trabalho aponta associações ao longo do tempo, mas não demonstra que a menopausa mais cedo cause alterações cerebrais, demência ou doença de Alzheimer.
Estudo acompanha 2.603 mulheres
Os pesquisadores reuniram dados de duas pesquisas de longo prazo sobre envelhecimento e cognição: o Religious Orders Study e o Rush Memory and Aging Project.
Do total de participantes, 774 realizaram exames repetidos de ressonância magnética. Dessa forma, a equipe pôde acompanhar mudanças estruturais no cérebro durante o período de observação.
A análise separou mulheres que tiveram menopausa espontânea, ocorrida naturalmente, daquelas que passaram por menopausa cirúrgica. Os resultados não foram iguais para os dois grupos.
Ressonâncias mostram alterações na substância branca
O principal achado nas imagens envolveu as hiperintensidades da substância branca. Essas são pequenas áreas que aparecem mais claras nos exames de ressonância magnética.
A substância branca é composta, sobretudo, por fibras nervosas que conectam regiões cerebrais. Portanto, ela participa da circulação de informações ligadas a funções como memória, atenção e movimento.
Com o avanço da idade, as hiperintensidades podem surgir com frequência. Elas podem se relacionar a mudanças nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro e a danos nas fibras nervosas.
Essas marcas, isoladamente, não indicam que uma pessoa tenha demência ou desenvolverá Alzheimer. No entanto, um volume maior e o aumento dessas alterações ao longo dos anos se associam a pior saúde cerebral e a problemas cognitivos.
Menopausa espontânea mais cedo amplia acúmulo
Entre as mulheres com menopausa espontânea, uma diferença de cinco anos na idade em que a menopausa ocorreu esteve associada a cerca de 15% mais volume de hiperintensidades da substância branca ao longo de uma década.
Em outras palavras, quanto mais cedo ocorreu a menopausa espontânea, maior foi a velocidade de acúmulo dessas alterações no grupo analisado.
A relação permaneceu após os pesquisadores considerarem idade, escolaridade, pressão arterial, índice de massa corporal e outros aspectos de saúde. Ainda assim, esse ajuste não transforma a associação em uma relação causal.
Testes apontam declínio cognitivo mais rápido
Além das ressonâncias, o estudo avaliou o desempenho cognitivo das participantes. Mulheres que passaram pela menopausa mais cedo apresentaram declínio mais acelerado da cognição global.
A diferença foi especialmente observada na memória episódica, capacidade usada para recordar acontecimentos e experiências pessoais. Esse resultado amplia a análise para além das alterações detectadas por imagem.
As associações com declínio cognitivo e com o tempo até o diagnóstico de Alzheimer foram mais pronunciadas entre as participantes que tiveram menopausa cirúrgica.
Modelo relaciona idade da menopausa ao Alzheimer
Segundo o modelo estatístico utilizado pelos autores, uma diferença de dez anos na idade da menopausa esteve associada a cerca de 1,8 ano a menos até o diagnóstico da doença de Alzheimer.
A idade média do diagnóstico de Alzheimer entre as participantes foi de 88,4 anos. O dado descreve a coorte estudada e não permite prever o risco individual de cada mulher.
Os resultados também não significam que uma menopausa em idade mais precoce provoque Alzheimer. A doença tem múltiplos fatores envolvidos, e o desenho da pesquisa não permite estabelecer causa e efeito.
Hipóteses explicam possível ligação hormonal
Uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores envolve o estrogênio. Na menopausa, os ovários reduzem progressivamente a produção desse hormônio, que participa de processos ligados ao funcionamento cerebral, ao metabolismo energético e à regulação da inflamação.
Assim, a queda hormonal poderia contribuir para mudanças na trajetória de envelhecimento do cérebro. Os autores, porém, não afirmam que modificar os níveis de estrogênio ou retardar a menopausa evitaria as alterações observadas.
Outra hipótese considera que um envelhecimento biológico mais acelerado possa estar ligado tanto à menopausa em idade mais precoce quanto a alterações cerebrais posteriores. A pesquisa também registra que a idade da menopausa foi informada pelas participantes e que as características demográficas da coorte podem limitar a aplicação dos resultados a outros grupos.


