O plantio de soja em Mato Grosso começou nesta semana para a safra 2026/27, após as primeiras chuvas em áreas do Estado. A semeadura ainda alcança menos de 1% dos cerca de 13 milhões de hectares projetados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), mas já mobiliza produtores preocupados com a regularidade das precipitações.
As primeiras frentes aparecem principalmente em lavouras irrigadas e em áreas de sequeiro que receberam volumes significativos de chuva. Por isso, agricultores antecipam os trabalhos para reduzir o risco de veranicos e preservar a janela de cultivo do algodão e do milho na segunda safra.
Produtores antecipam o plantio
O Imea registrou áreas semeadas no oeste de Mato Grosso, incluindo municípios como Campo Novo dos Parecis, Diamantino e Brasnorte. A movimentação, no entanto, permanece pontual e acompanha a distribuição irregular das chuvas.
Segundo Cleiton Gauer, superintendente do Imea, os produtores buscam acelerar o início dos trabalhos sempre que encontram umidade suficiente no solo. A estratégia atende especialmente agricultores que pretendem cultivar algodão ou milho após a colheita da soja.
Gauer afirmou que a antecipação não se limita às propriedades voltadas ao algodão. Produtores que planejam plantar milho na segunda safra também participam do movimento, já que o calendário da primeira cultura influencia diretamente o período disponível para a seguinte.
Chuvas avançam de forma irregular
As precipitações registradas nesta semana não atingiram todo o Estado. De acordo com o superintendente, algumas áreas receberam volumes expressivos, enquanto trechos próximos permaneceram secos.
Essa diferença pode aparecer mesmo em distâncias curtas. Gauer relatou que havia água acumulada em determinadas lavouras, mas o solo voltava a apresentar falta de umidade poucos quilômetros adiante.
O produtor está antecipando, aproveitando a chuva do cedo”
Cleiton Gauer, superintendente do Imea
Assim, o avanço inicial do plantio depende mais das condições locais do que de uma mudança uniforme no padrão climático de Mato Grosso. A distribuição das próximas chuvas deve definir a velocidade da semeadura nas diferentes regiões.
El Niño encurta a janela
O possível impacto do El Niño está entre as principais preocupações para a temporada. O fenômeno pode favorecer a interrupção antecipada das chuvas na região central do país, reduzindo o período disponível para o desenvolvimento das culturas.
Por isso, alguns agricultores aproveitam as primeiras precipitações para iniciar a semeadura antes que novos períodos secos apareçam. A decisão busca diminuir a exposição da soja e das culturas de segunda safra a uma janela climática mais curta.
Gauer avaliou que o cenário não deve provocar problemas generalizados para a soja em Mato Grosso. Ainda assim, ele espera efeitos concentrados, com algumas regiões enfrentando mais dificuldades do que outras.
Plantio ganha força em outubro
O avanço mais significativo do plantio é esperado para a primeira quinzena de outubro. Até lá, a entrada de novas chuvas poderá ampliar as áreas aptas à semeadura e acelerar o ritmo das operações.
A diferença entre lavouras irrigadas e de sequeiro tende a permanecer relevante no começo da temporada. Enquanto a irrigação permite maior controle sobre a disponibilidade de água, as áreas sem irrigação dependem da ocorrência e da regularidade das precipitações.
O calendário da soja também afeta as culturas seguintes. Em Mato Grosso, o Estado líder na produção nacional de soja, milho e algodão concentra boa parte dessas atividades na segunda safra, depois da retirada da oleaginosa.
Se o El Niño forte perdurar, a nossa preocupação fica por conta da janela de chuvas”
Cleiton Gauer, superintendente do Imea
Imea projeta queda na produção
O Imea estima que a produtividade média da soja recue 5,4% em relação ao ciclo anterior. Ao mesmo tempo, a área plantada deve crescer ligeiramente.
Mesmo com a expansão territorial, a combinação entre menor rendimento e condições climáticas mais desafiadoras pode levar a produção estadual para cerca de 49 milhões de toneladas.
As projeções ajudam a dimensionar o efeito potencial do clima sobre a safra. No entanto, o resultado final dependerá do comportamento das chuvas ao longo do ciclo e da distribuição dos impactos entre as regiões produtoras.
Vendas antecipadas avançam
A comercialização antecipada da soja 2026/27 avançou em agosto, segundo dados divulgados pelo Imea. As vendas alcançaram 39% da safra projetada, acima da média histórica de 30,55% para o período.
Os produtores têm buscado fixar preços considerados mais favoráveis antes do desenvolvimento completo da nova safra. Ainda assim, o ritmo de comercialização não alterou, até o momento, a intenção de plantio em Mato Grosso.
Para o milho, a preocupação climática é maior. A permanência de um El Niño forte pode reduzir a janela de chuvas e pressionar a produtividade da segunda safra, especialmente se as precipitações terminarem antes do padrão esperado.


