O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelas acusações de feminicídio e fraude processual na morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, contestou em seu último interrogatório o teor das mensagens trocadas com a vítima sobre a separação do casal. A morte da policial militar ocorreu por disparo de arma de fogo no ambiente doméstico, gerando um embate jurídico acirrado entre a acusação e a defesa sobre a dinâmica dos fatos ocorridos no apartamento.
Realizado nesta última segunda-feira, o depoimento judicial do oficial se estendeu por mais de oito horas. Durante a longa sessão, o réu argumentou que a companheira simulava a intenção de romper o relacionamento por meio de mensagens de texto, comportamento que, segundo a tese apresentada por ele, divergia das conversas presenciais mantidas pelos dois no dia a dia da residência.
Defesa aponta divergência em laudo
Um dos pontos centrais no argumento da defesa do tenente-coronel envolve a altura da soldado Gisele Alves Santana descrita nos documentos oficiais elaborados pelo Instituto de Criminalística. Os registros periciais iniciais apontam que a vítima tinha 1,65 metro de altura, mas o réu sustenta na Justiça que ela possuía dez centímetros a mais, o que alteraria a análise física do local e a dinâmica do disparo registrado pelas autoridades.
A divergência sobre a estatura ganha relevância jurídica porque a linha de defesa busca sustentar a ocorrência de suicídio no quarto do casal. Segundo o relato do oficial prestado às autoridades, a pistola calibre ponto 40 que disparou contra a cabeça da esposa estava posicionada em cima de um armário, e a companheira teria alcançado o armamento para cometer o ato extremo enquanto ele tomava banho no banheiro.
Relatórios elaborados anteriormente pela Polícia Civil indicam que o aparelho telefônico celular da soldado foi desbloqueado e teve conteúdos apagados minutos após ela ser atingida pelo tiro fatal, embora a perícia técnica tenha conseguido recuperar o material trocado na noite anterior. O histórico recuperado mostrava conversas sobre o fim do casamento, com manifestações recorrentes de vontade de separação por parte da policial militar e resistência do marido.
Mensagens apagadas geram embate
O advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa legalmente a família da vítima e acompanhou de perto a oitiva judicial, criticou a versão apresentada pelo oficial da corporação durante o depoimento. Para a acusação, as declarações prestadas pelo réu carecem de credibilidade diante dos indícios levantados pelas investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelas provas materiais reunidas nos autos do processo criminal.
Por sua vez, o advogado de defesa Eugênio Malavasi preferiu adotar cautela e afirmou que a discussão a respeito do conteúdo das mensagens de texto trocadas pelo casal representou apenas uma parte lateral de todo o interrogatório. A defesa técnica argumenta que o militar conseguiu desmontar os fundamentos da acusação ao apresentar uma narração detalhada e cronológica dos acontecimentos daquele dia.
A sequência detalhada de registros eletrônicos obtidos nos aparelhos telefônicos e os horários das ligações efetuadas para o serviço de emergência 190 apontam que o tenente-coronel realizou chamadas minutos após o disparo fatal. A primeira ligação ocorreu por volta das 7h54, mas não foi completada, seguida por outra tentativa rápida e, finalmente, por uma chamada de três minutos com o atendimento policial de urgência.
Uso de remédio é questionado
Além das discussões sobre as mensagens e a altura registrada na perícia criminal, o tenente-coronel também alegou perante a Justiça que a esposa apresentava alterações de comportamento e de humor provocadas pelo consumo de um medicamento específico, a oxandrolona. Segundo a versão do oficial, as mudanças repentinas de atitude em relação ao processo de divórcio teriam ocorrido estritamente dentro desse contexto farmacológico.
A defesa sustentou durante o interrogatório que as variações de humor da soldado ocorriam apenas no âmbito doméstico e não afetavam o seu desempenho profissional na corporação. No entanto, a apuração policial aponta que o exame toxicológico realizado no cadáver da vítima não identificou a presença da substância mencionada pelo réu nos testes laboratoriais oficiais do Instituto Médico Legal.
A fase atual do processo prevê que a Justiça conceda um prazo de cinco dias para que tanto a acusação quanto a defesa formalizem suas alegações finais, que constituem a última manifestação escrita antes da decisão do juízo. Após essa etapa, o tenente-coronel poderá ser submetido a julgamento popular por meio de júri ou receber uma eventual absolvição sumária do magistrado responsável.
Próxima fase define o júri
O andamento processual aguarda a entrega das manifestações finais pelas partes envolvidas para que o juiz defina se o réu será pronunciado e enviado para julgamento perante o Tribunal do Júri. A acusação sustenta a tese de crime doloso contra a vida e fraude processual, enquanto a defesa aposta na anulação de laudos técnicos e na comprovação da tese de que a vítima tirou a própria vida no apartamento.
A gravidade das acusações e a condição dos envolvidos como agentes de segurança pública mantêm o caso sob forte atenção do sistema de Justiça paulista. As autoridades judiciais analisam minuciosamente todos os elementos periciais, depoimentos colhidos ao longo da instrução criminal e registros telefônicos para fundamentar a sentença que encerrará esta fase do processo.
Com o encerramento dos depoimentos e a iminência da entrega das alegações finais, o processo entra em sua reta decisiva na primeira instância da Justiça. O desfecho desta etapa determinará se o oficial da Polícia Militar responderá perante os jurados pelas acusações de feminicídio e alteração dolosa da cena do crime em São Paulo.


