O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prestou depoimento à Polícia Federal na quarta-feira (30) e negou qualquer participação em atos violentos ou de caráter intimidatório contra desafetos. A oitiva ocorreu por videoconferência, com o investigado participando diretamente do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
Durante o procedimento, o ex-banqueiro negou conhecer ou participar da existência dos grupos denominados como “A Turma” ou “Os Meninos”. A investigação da Polícia Federal aponta que essas estruturas teriam atuado no monitoramento e na intimidação de jornalistas, concorrentes e ex-empregados.
As apurações sobre o esquema ganharam força após a análise de mensagens extraídas de aparelhos telefônicos apreendidos no âmbito da Operação Compliance Zero. O material indicaria conversas sobre o monitoramento de alvos e ações de coação atribuídas ao círculo de relacionamento do empresário investigado pelo Supremo Tribunal Federal.
Defesa contesta mensagens privadas
Em nota oficial divulgada após a oitiva, a defesa de Daniel Vorcaro argumentou que o acesso integral ao inquérito policial comprovaria que as expressões investigadas nunca designaram organizações criminosas estruturadas. Segundo os advogados, não há qualquer tipo de ilicitude que possa ser atribuída ao fundador do Banco Master nas menções mapeadas pelos investigadores.
Os defensores também sustentaram que os trechos destacados nos autos representariam apenas recortes de conversas particulares. De acordo com a representação jurídica do ex-banqueiro, as falas registradas nos chats decorreriam de momentos de indignação pessoal e de desabafos cotidianos que jamais teriam se transformado em ameaças reais ou em atos concretos contra terceiros.
A manifestação jurídica reforçou ainda que o perfil do empresário seria pacífico e que a análise sequencial das mensagens demonstraria a ausência de dolo na conduta. Com base nesses argumentos, a defesa protocolou novos pedidos formais para que a prisão preventiva seja revogada e o investigado possa responder aos trâmites em liberdade.
Pai nega papel de liderança
Henrique Vorcaro, pai de Daniel e apontado pelas autoridades policiais como suposto articulador das atividades investigadas, também prestou depoimento às autoridades na mesma data. Durante o interrogatório, ele rejeitou as acusações de que comandava o grupo e afirmou ter mantido apenas relações estritamente comerciais com os investigados.
A defesa de Henrique Vorcaro criticou publicamente a continuidade das prisões e apontou demora na tramitação de recursos e requerimentos protocolados no Supremo Tribunal Federal. Os advogados argumentaram que pedidos direcionados ao relator do caso não teriam recebido apreciação tempestiva pela Suprema Corte.
Segundo a representação do pai do ex-banqueiro, os fundamentos iniciais que justificaram a decretação das custódias preventivas já teriam perdido a validade jurídica ao longo da instrução. Para a defesa, a manutenção das prisões cautelares configuraria medida desproporcional diante do estágio atual das investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Contratos de inteligência citados
No decorrer da oitiva realizada por videoconferência, Daniel Vorcaro admitiu ter mantido vínculo profissional apenas com Luiz Phillipi Mourão, apontado pelos investigadores como gerente das operações de monitoramento. Mourão, conhecido no inquérito como Sicário, foi preso em fases anteriores da operação, mas cometeu suicídio na sede da superintendência policial em Belo Horizonte.
A defesa esclareceu aos investigadores que a relação contratual estabelecida com o prestador de serviços era estritamente formal e lícita, voltada para atividades de inteligência e segurança digital. Para os advogados, o contrato empresarial não possuía qualquer relação com as denúncias de intimidação investigadas pela força-tarefa.
As apurações policiais continuam concentradas na análise de mídias e documentos apreendidos para esgotar todas as linhas de investigação sobre a suposta rede de coação. O inquérito tramita sob supervisão do Supremo Tribunal Federal e deve receber novas diligências nas próximas semanas para esclarecer o alcance das mensagens mapeadas.
Desdobramentos da operação
A Operação Compliance Zero aprofundou nas últimas semanas a apuração sobre episódios específicos de tentativa de intimidação contra profissionais da imprensa e empresários. Entre os casos monitorados pela Polícia Federal consta a menção a planos de agressão contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, após a publicação de reportagens que desagradaram o círculo empresarial do Banco Master.
O avanço das frentes de investigação gerou repercussão no meio político e empresarial, incluindo o registro de trocas de mensagens entre Daniel Vorcaro e figuras públicas, a exemplo do apresentador Luciano Huck. O material tem sido anexado aos autos para rastrear conexões e o alcance de influência do grupo investigado.
A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal analisam os novos depoimentos prestados por pai e filho para decidir sobre o oferecimento de denúncias formais ou a prorrogação de prazos inquisitoriais. Enquanto isso, a defesa aguarda novas manifestações do Supremo Tribunal Federal sobre os pleitos de liberdade protocolados pela equipe jurídica.


