Investigações conduzidas pela Polícia Federal revelam que o ex-secretário-executivo da Saúde de Goiânia Quesede Ayres realizou um depósito de R$ 100 mil cobrado pela lobista Roberta Luchsinger. O montante, segundo os investigadores, seria destinado a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cobrança ocorreu em novembro de 2024, antecedendo em apenas quinze dias a primeira prisão do ex-gestor municipal no âmbito de apurações sobre fraudes e desvios na administração pública municipal.
De acordo com os registros obtidos pelos investigadores, as mensagens trocadas em 11 de novembro de 2024 mostram a pressão exercida pela lobista para a quitação imediata do valor financeiro. Nas conversas, Roberta Luchsinger relata que o indivíduo referido como homem estaria cobrando o montante com urgência antes de embarcar para o exterior. A apuração da Polícia Federal aponta que a referência era dirigida a Lulinha, que viajou para Lisboa na mesma data a bordo de um voo comercial que também transportava Antônio Carlos Camilo Antunes.
A viagem realizada por Fábio Luís Lula da Silva teve como destino a capital de Portugal, no exato dia em que a cobrança de R$ 100 mil era intensificada pelas mensagens da lobista. Os registros da investigação mostram que o voo que partiu de Guarulhos contava com a presença de figuras citadas nas apurações sobre contratos públicos. Os investigadores buscam agora esclarecer a natureza exata dos repasses financeiros e a eventual conexão entre os valores cobrados e as viagens internacionais realizadas pelos investigados no período.
Polícia Federal aponta pressões
As mensagens detalhadas pela Polícia Federal mostram a urgência com que a lobista tratava o pagamento da quantia solicitada ao ex-secretário municipal. O teor das conversas indica que o repasse deveria ser concretizado antes do embarque do beneficiário final para fora do país. A apuração policial reuniu esses diálogos para reconstituir a rota financeira e as exigências feitas aos gestores públicos envolvidos nos contratos da área da saúde.
A proximidade temporal entre a cobrança do montante financeiro e a primeira prisão de Quesede Ayres chamou a atenção dos investigadores federais. Quinze dias após a movimentação relatada nos chats, o ex-gestor foi alvo de mandados em decorrência de suspeitas de irregularidades em contratos administrativos. A investigação aponta que a pasta da Saúde de Goiânia era o epicentro das fraudes apuradas pelas autoridades competentes durante o período analisado.
O material apreendido e analisado pelos peritos federais continua servindo de base para desdobramentos sobre a destinação final dos recursos públicos. A Polícia Federal aprofunda a análise das mensagens para verificar se houve outras cobranças semelhantes direcionadas a agentes públicos da administração municipal em Goiânia. O inquérito segue em andamento para apurar todas as responsabilidades no esquema investigado.
Prisões e desvios na saúde
O ex-secretário-executivo Quesede Ayres foi alvo de duas prisões consecutivas ao longo das investigações conduzidas pelo Ministério Público de Goiás e pelas forças policiais. A primeira detenção ocorreu em 27 de novembro de 2024, logo após o período em que as mensagens sobre o repasse financeiro foram registradas. À época, o Ministério Público apontou indícios de vantagens indevidas em contratos administrativos, desrespeito à ordem cronológica de pagamentos e prejuízos severos ao erário municipal.
Dias após a primeira medida restritiva de liberdade, o ex-gestor acabou sendo solto por decisão judicial, mas voltou a ser detido em dezembro de 2024. A nova prisão ocorreu após dois dias na condição de foragido, em meio a denúncias de um suposto desvio de R$ 10 milhões na Secretaria de Saúde de Goiânia. Mesmo após deixar a prisão novamente dias depois, o impacto político e administrativo da crise levou o Tribunal de Justiça de Goiás a decretar a intervenção do Estado na gestão da saúde municipal.
A intervenção judicial representou uma medida drástica para tentar estancar os prejuízos e reorganizar a administração dos hospitais e postos de atendimento da capital goiana. Os relatórios apresentados pelos órgãos de controle apontaram falhas sistêmicas na execução dos contratos e na liberação de pagamentos a fornecedores. A gestão estadual assumiu o comando para restabelecer a normalidade nos serviços essenciais oferecidos à população local.
Defesa e contraponto oficial
A apuração jornalística procurou a defesa de Quesede Ayres Henrique para obter um posicionamento oficial sobre as acusações detalhadas pelas autoridades policiais e pelo Ministério Público. Até o momento, os representantes legais do ex-secretário não retornaram aos contatos realizados para comentar as suspeitas levantadas. O espaço permanece aberto para manifestações futuras da defesa em relação aos fatos investigados.
As investigações sobre o caso continuam sob sigilo em diversas instâncias do judiciário e dos órgãos de persecução penal no estado de Goiás. Novos depoimentos e análises de documentos apreendidos devem complementar o inquérito nos próximos meses, definindo o rumo das denúncias formais. A repercussão do caso segue mobilizando autoridades locais e federais na fiscalização de contratos públicos.
O andamento das apurações demonstra a complexidade da rede de relações e repasses financeiros revelada pelas mensagens obtidas durante o inquérito policial. As autoridades mantêm o monitoramento sobre os desdobramentos das fraudes na Saúde de Goiânia e eventuais ramificações políticas do caso. O desfecho das investigações poderá resultar em novas denúncias perante a Justiça nos próximos meses.
Cobrança de repasse financeiro
O homem está cobrando, vai embarcar e está enchendo o saco atrás do montante.”
Roberta Luchsinger, lobista
As mensagens recuperadas no inquérito policial revelam o tom de cobrança utilizado pela lobista ao exigir a quitação dos valores pendentes. O teor das conversas reforça a tese de que havia urgência no repasse devido aos compromissos de viagem assumidos pelo beneficiário final. Os investigadores utilizam esses registros para mapear a atuação de intermediários no esquema sob escrutínio.
A análise técnica do material telefônico segue como uma das principais frentes de trabalho para esclarecer o destino final dos recursos movimentados. Peritos da corporação cruzam dados de chamadas, registros de viagens e movimentações bancárias para corroborar as suspeitas levantadas na fase inicial da operação. O acervo probatório reunido até o momento subsidia as próximas etapas da investigação conduzida pelas autoridades federais.
Novas diligências devem ser realizadas para esclarecer o papel de cada investigado na rede de contratos suspeitos firmados com o poder público municipal. O inquérito policial permanece aberto a novas oitivas e cruzamentos de dados financeiros nos próximos dias. As autoridades buscam fechar o cerco contra os operadores do esquema de desvios na capital goiana.


